Quando a filha de Mônica completou 4 meses, ela recebeu um e-mail dizendo que a filha "estava pronta para receber alimentos sólidos".

Quando a filha de Mônica completou 4 meses, ela recebeu um e-mail dizendo que Júlia estava “pronta para receber alimentos sólidos”

Quando a filha da funcionária pública Mônica Mourão, 32 anos, completou 4 meses, no último dia 10 de setembro, ela recebeu um e-mail de uma fabricante de alimentos parabenizando-a pela data e sugerindo que a partir daquele momento sua filha, Júlia, poderia começar a comer alimentos sólidos. Mônica, que sabe que as crianças têm de mamar apenas leite materno até os seis meses de idade, ficou chocada.

“Na newsletter que me enviaram há receitas de papinhas que, segundo eles, podem ser oferecidas a partir dos quatro meses. Também sugeriam bebidas lácteas que só podem ser consumidas por crianças a partir de um ano de idade”, afirma. Mônica ficou indignada, mas não impotente. Escreveu na mesma hora para a Nestlé, pedindo explicações. “Escrevi manifestando meu repúdio a uma ação de marketing inescrupulosa, vexatória, aviltante à saúde das crianças.” O blog também entrou em contato com a sede da empresa no Brasil durante o todo o dia. A empresa afirma que irá apurar o assunto internamente, mas o blog não obteve resposta até a publicação da reportagem. A Newsletter foi enviada pelo site da Nestlé de Portugal, consultado por Mônica em uma busca por informações sobre a curva de crescimento dos bebês.

E-mail recebido por Mônica

Segundo o pediatra Moisés Chencinski, a introdução alimentar não pode ser antecipada. “Antes dos seis meses o bebê não senta, a língua não está pronta para a alimentação e nem há enzimas digestivas em quantidade suficiente”, completa. Ele reitera que a recomendação da OMS, Organização Mundial da Saúde, Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria é clara: o aleitamento materno tem de começar na sala de parto e ser exclusivo e em livre demanda até o sexto mês. “Independentemente de o bebê ser alimentado pelo leite materno ou por fórmula, a introdução alimentar não pode ser adiantada”, completa. Os riscos, segundo Chencinski, vão desde o desenvolvimento de alergias até o de um maior risco de obesidade.

E a obesidade já é um problema de saúde pública no Brasil e responsável pelo aumento dos casos de diabetes, hipertensão e de outras doenças. Pesquisa divulgada pelo IBGE em agosto deste ano mostrou que 56,9% dos adultos estão com excesso de peso. Mostrou também que a maioria das crianças segue o mesmo caminho, já que 60,8% dos bebês até dois anos já comem biscoitos e bolachas recheadas e 32,3% tomam refrigerante e suco artificial.

Sugestão de alimentos recebido de um pediatra de São Paulo pela mãe de um bebê de 8 meses

Sugestão de alimentos de um pediatra que atende na grande São Paulo para a mãe de um bebê de 8 meses. Há açúcar em todas as receitas

Enquanto converso com Mônica, vejo mais uma mãe indignada nas redes sociais. É uma fisioterapeuta de 29 anos que foi a consulta de 8 meses com o pediatra do seu filho e recebeu um “menu” para diversificar a alimentação do pequeno: em todas as receitas é sugerida a adição de açúcar, inclusive nas de “frutas cozidas”. A mãe, que não quer ter seu nome divulgado, afirma que há tempos não seguia a orientação do médico, que o blog também vai omitir a identidade, mas que é pediatra e especialista em terapia intensiva e está “ativo”, segundo o site do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. “Ele pediu para eu iniciar os sucos e chás quando meu filho fez quatro meses e mandou que eu colocasse açúcar. Quando começaram as frutas, deu a mesma orientação. Mas eu nunca adocei”, afirma. Agora, depois desse “menu”, decidiu procurar outro profissional. “Eu fui obesa mórbida. Fiz cirurgia bariátrica. Eu me alimentava muito mal. Não quero isso para o meu filho”, afirma.

Introdução alimentar

Segundo a nutricionista e pesquisadora da Faculdade de Saúde Pública, Viviane Laudelino Vieira, 35, mãe de uma menina de 2 anos e criadora do blog Maternidade sem neura, o cardápio sugerido pelo pediatra tem vários problemas: Um deles é prescrever o consumo de certas marcas. “A não ser que não exista similar equivalente no mercado, o profissional não pode orientar marcas comerciais únicas, sem dar outras opções”, afirma. O “menu” infantil também sugere preparações com açúcar, que não são recomendadas para menores de 2 anos que estão em fase de formação de preferências alimentares, além de estimular o consumo de uma alta quantidade de alimentos industrializados. “Esses alimentos, como gelatinas e biscoitos, têm sido considerados responsáveis pela epidemia de obesidade por apresentar grandes quantidades de açúcar. Outros alimentos processados têm gorduras e sódio e usam conservantes, aromatizantes, corantes e outros aditivos que não são recomendados a essa idade”, completa. Segundo ela, aveia, pães caseiros, tapiocas e bolos sem açúcar poderiam ser oferecidos se objetivo fosse uma maior variedade. “Porém para bebês de 8 meses não há necessidades de lanches com fontes de carboidrato”, garante Viviane.

Computador

Essas duas mães afirmam que a internet e grupos de mães no Facebook dos quais participam são os responsáveis por elas questionarem informações “enviesadas” que recebem de alguns médicos e das indústrias. “Minha mãe já morreu e na minha família não tem bebês. Sem maiores referências, eu leio, participo e aprendo muito nos grupos. E “peneiro” tudo antes de aceitar uma informação como verdadeira”, afirma. Mônica também é uma leitora voraz de informações sobre maternidade. “Nessa vida moderna em que não conhecemos mais as vizinhas, moramos longe da família, esses espaços virtuais acabam suprindo essa lacuna”, garante. “A internet como um todo ajuda muito nesse papel de fazer um contrapeso ao ataque da grande indústria”, arrisca.

*Às 16:45 do dia 16/09 a assessoria de imprensa da Nestlé se manifestou através de um telefonema, afirmando que a legislação em Portugal é diferente da brasileira. Afirmou também, por meio de nota, que “a Nestlé Brasil acredita que o leite materno é a melhor opção para os bebês, por isso, apoia a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida, seguido pela introdução da alimentação complementar adequada, e manutenção do aleitamento materno até os dois anos de idade ou mais.

A Nestlé possui um compromisso global de comercializar substitutos do leite materno de forma responsável. Assim, cumpre plenamente a legislação brasileira aplicável e atualmente é a única companhia de nutrição infantil incluída no Índice FTSE4Good.”

 

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