Foto: Pixabay

Se você é ativo nas redes sociais e não esteve em coma no último domingo e segunda deve ter lido a história de Fernanda T, 27, mãe de uma criança pequena que decidiu reativar sua conta no Tinder para um “experimento”. A ideia de voltar ao site de paquera surgiu em uma conversa com uma amiga socióloga. Segundo Fernanda, a vida afetiva dos homens não sofre nenhum abalo depois que se tornam pais, separam-se e decidem procurar uma nova parceira.  Já as mulheres que são mães precisam esconder a própria maternidade se quiserem ter alguma chance de retomar sua vida amorosa.

Foto de Fernanda T: Reprodução Facebook

 

Para provar seu ponto de vista, Fernanda escolheu a foto mais bonita que tinha e se descreveu no Tinder como “mãe, professora, militante e feminista” e se “relançou” no mundo da paquera, depois de separada do pai do seu filho. O resultado? “Foi uma semana forte. Não fez bem pro meu ego. Mesmo”, declarou em seu Facebook. Fernanda conta que 83 homens do aplicativo deram “match”, ou seja, também se interessaram por ela – o Tinder só libera a conversa entre os parceiros quando o interesse é recíproco. E fez um top 10 das piores coisas que “ouviu” desses candidatos quando se deram conta que, nossa que horror, havia uma mãe procurando um relacionamento em um aplicativo de namoro. Abaixo estão cinco dos “papos” entre ela e esses homens no Tinder – três transcritos e dois no print de sua página no Facebook, suficientes para qualquer um “sentir o clima”, ou melhor, a falta dele.

Veja a conversa de Fernanda com Raul*, 27 anos:
-Oi gata
-Oi. tudo bem?
-Melhor agora.
– ><
-Que bom que você avisa que tem filho.
-É? Por que?
-Assim facilita e a gente não tem surpresa.
-Como assim?
-ah gata
não se apaixona nem se desiludi (sic)
– como assim?
– vc é mãe
já sei q n rola nd sério

Felipe*, 31 anos, foi direto ao ponto:
-Tu é mãe?
ainda amamenta? <3
– Oi. Tudo bem? Não mais, por que?
– Nada não.
(combinação desfeita, por ele)

*Lucas, 28 anos, também obcecado pela ideia de uma mulher com filho estar paquerando em um aplicativo:
-…
-então o seu filho está onde agora?
– Em casa, comigo. por que?
-Nossa.
Você é bem feminazi esquerdista mesmo.
coitada da criança com uma mãe puta dessas que fica procurando macho.

(* os nomes foram trocados)

Ela ouviu que, como era mãe, não podia ser também namorada. Teve de responder se era separada ou se seu estado civil sempre foi de “solteira”, porque mulher que tem filho e não se casou “é porque não vale muito”. Ouviu que feminista é “raça ruim, que não se depila”, “que ninguém leva a sério mulher com filho”, entre outras pérolas. “Hoje sigo no limbo social e emocional que nos colocam, fingindo que sou forte e que está tudo bem. Não está. Esses diálogos nojentos aí em cima provam que nada está bem. O meu estado ‘civil’ no momento não importa pra ninguém porque essa não é a questão desse experimento e do futuro artigo (que Fernanda promete escrever com os dados do seu experimento nessa rede social). Meu estado emocional e o estado emocional de todas as mães que escondem sua maternidade no primeiro momento para evitar fetichização e conseguir atenção afetiva, sim”, afirma.

Foto: Reprodução do Facebook

E não é apenas quando a mulher quer se relacionar que ela “esconde” que é mãe. No mercado de trabalho é a mesma coisa. O preconceito mostra as garras assim que uma mulher chega a uma entrevista de emprego e conta que é mãe de uma criança pequena. Se for solteira, pior. O mundo acredita que cuidar de uma criança é responsabilidade exclusiva da mãe e, mesmo se o pai for presente na vida do filho, os empregadores não querem nem saber. Têm certeza que será ela, a “mãe-solo” que irá faltar ao trabalho por “qualquer febrinha” do filho. Uma conhecida me contou que chegou a mentir a um recrutador dizendo que ainda era casada com o pai da sua filha, porque acreditava que assim tinha mais chances de conseguir um emprego. Sabia que se dissesse que estava separada, nada feito.

Quando o texto de Fernanda viralizou (e logo foi “derrubado” no Facebook, provavelmente por uma enxurrada de denúncias promovidas por haters) comecei a ler os comentários de mulheres que listaram os inúmeros preconceitos que enfrentam como mães-solo, solteiras, separadas ou divorciadas. Li o depoimento de uma mulher que contava como é excluída por outras mães, principalmente as dos amigos do filho na escola, que estão casadas. Infelizmente muitas de nós são machistas e veem uma mulher separada por perto como ameaça ao próprio relacionamento. Comentários na família também são comuns, pelo mesmo motivo, e criar um filho sozinha ainda é visto como demérito, quase uma falha de caráter, durante 364 dias do ano. A mulherada só tem folga no dia das mães, quando são chamadas de heroínas, “super-mulheres” e ganham flores, cartões e gifs fofinhos nas redes. Mas apenas se não ousarem, claro, dizer ao mundo que, de presente, não querem flores e bombons e sim um relacionamento duradouro e decente. Aí é tiro, porrada e bomba. E joga pedra na Geni.

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