Sem filhos

 

“Você não vai ter filhos? Nenhum? Vai se arrepender, hein?”

Essa é a pergunta que já vem com uma resposta cheia de julgamentos que muitas das minhas amigas e conhecidas ouvem, todos os dias, ao querer outras coisas da vida, como estudar e morar em outro país ou uma animada e prolongada vida de solteira (ou de casada), em vez de filhos.

“Quem vai cuidar de você quando for idosa?”, perguntam, como se filho fosse uma espécie de enfermeiro, a garantia de que você vai ter companhia, ou alguém para comprar seu remédio ou levá-lo ao hospital quando estiver velho e doente. (Quem garante que precisaremos de um cuidador? E se eles realmente forem necessários, onde está escrito que nossos filhos serão essas pessoas? Precisar de uma companhia na velhice seria um bom motivo para ter filhos?)

As mulheres, pelo menos as da minha geração, foram criadas brincando de casinha e de “mamãe e filhinho”. Muitas já pensavam, desde pequenas, que nome iam dar a eles, quantas crianças iam ter. Mas a vida foi mudando e, ao contrário das nossas mães e avós, pudemos estudar, fazer intercâmbio, mestrado, doutorado. E uma vida diferente daquela das brincadeiras da infância foi se mostrando possível para muitas de nós. Mas, apesar de tudo, essa é a pergunta que nunca cala, mesmo se a mulher em questão tiver passado a vida focada em descobrir a cura do câncer, em ganhar um Oscar, ou em ser astronauta da Estação Espacial Internacional. Se não tiver um filho no meio do caminho, mesmo para deixar com a babá, não “teve uma vida completa”. Sabem de nada, os inocentes.

Lembrei disso ao ler esses dias a entrevista da atriz britânica Helen Mirrer ao jornal britânico “The Sunday Times”. A atriz que já ganhou um Oscar, quatro prêmios Bafta, três Globos de Ouro, quatro Emmy´s, um Tony e dois prêmios de melhor atriz do Festival de Cannes teve de responder se não se arrependia por nunca ter sido mãe. Ela disse que ama crianças, mas que nunca quis tê-las e que não se lamentava por sua escolha. Depois se lembrou que quando assistiu ao filme “Parenthood” com Steve Martin (que no Brasil foi chamado horrorosamente de “O tiro que não saiu pela culatra”), chorou compulsivamente por 20 minutos ao ver que a maternidade era uma experiência pela qual nunca ia passar. “Mas daí o choro passou e voltei a ser feliz “, completou.

Todas as publicações que repercutiram a entrevista da atriz destacaram a “infelicidade” de Helen por não ter filhos. “Helen Mirrer arrepende-se de não ter tido filhos”, li em um site brasileiro. E no Reino Unido matérias foram escritas sobre Helen “chorar compulsivamente por não ter tido filhos”. A manchete é ótima, faz muitos leitores clicarem para ler, mas não é verdadeira, né? Chorar 20 minutos por uma decisão sua não pode ser encarado como um arrependimento para a vida inteira. Eu já chorei compulsivamente por várias coisas que não me lembro agora, talvez porque não eram realmente importantes para mim.

Não ter tido filhos para Helen e para muitas outras mulheres (e casais) é uma escolha totalmente consciente e sem crise. Algumas não querem colocar uma criança nesse mundo injusto e desleal. Outras sabem que sim, é perfeitamente possível ser feliz sem filhos. Outras não se veem cuidando de uma criança. E eu, que nasci para ser mãe, não pergunto mais para uma mulher “Por que você não quis ter filhos?!!!” Pergunto se ela os tem. Se a resposta for não, sigo para a próxima questão. “Qual sua profissão?”, “Qual o último livro que você leu?” ou “O que está achando dessa crise política toda?”. Porque uma mulher tem dezenas, centenas, milhares de coisas a oferecer ao mundo, além de filhos.

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