Foto: Pixabay

Dia desses eu dei risada quando uma colega de trabalho comentava que o filho, às vésperas de completar dois aninhos, está ficando cada dia mais espevitado. Desde que começou a andar ele não para, claro, mas agora também mexe em tudo, mostra que tem (muitas) vontades e descobriu o poder da birra, aquela prática que você acha que é exclusiva do filhos dos outros até ser mãe, óbvio.

Lembrei de como torcia para que meu bebê crescesse rápido, não porque não gostava de recém-nascidos, mas sim porque achava que as coisas ficariam mais fáceis quando ele ficasse maiorzinho. Sonhava em voltar a dormir uma noite inteira, pensava em como seria incrível o dia que eu pudesse tomar um banho longo sem ser interrompida, ler um livro por horas seguidas. Ora, ora, eu não sabia de nada, a inocente.

Dei risada das minhas lembranças e contei para minha amiga que filho é que nem joguinho de vídeo-game: quando você “passa de fase” os desafios ficam ainda mais difíceis. Você acha que a vida vai ficar mais suave no momento em que seu rebento se livrar das fraldas apenas por não se dar conta que vai (voltar a) acordar de madrugada, mas para trocar roupas e lençóis sujos de xixi. Só porque não imagina a quantidade de vezes que seu pequeno tamagochi vai fazer cocô no chão do banheiro/da sala/na varanda, ao lado da areia do gato, porque é mais legal do que usar aquele penico lindo de super-herói pelo qual você pagou uma nota.

Já reparou que nos jogos eletrônicos os bonequinhos vão ficando cada vez mais espertos e hábeis? Na vida real é assim também: tente dar aquele xarope de sempre para o seu filho de dois anos para perceber que ele agora já consegue correr de você mais rápido que o Super Mario em seu kart, ou seja, o modo easy ficou para trás, entramos de cabeça no hard, quando você vê seu filho praticando salto duplo do berço e cuspe de brócolis à distância (fica a dica, Microsoft, pode adicionar essas novas modalidades no próximo Kinect Sports, estamos preparadas.)

Mais rápido que o Mário Kart. Foto: Pixabay

Mas o Samuca ainda ‘dá trabalho’?, minha amiga me perguntou, ávida por uma resposta negativa, um ‘não, imagina, já é um mocinho’. Daí eu contei que ele ainda vai dormir na nossa cama várias vezes na semana, em busca de aconchego. Que agora tem argumento pra tudo, ‘por que não’, definitivamente, não é mais resposta para ele. Contei que, mesmo tomando banho sozinho, preciso intervir vez ou outra dando uma esfregada nas orelhas e nas canelas, para tirar o cascão, e que ele ainda interrompe meu sagrado direito de fazer xixi em paz para me contar coisas urgentes e imperdíveis sobre o desenho animado da tevê.  Ah, e sabe aquela criança que comia de tudo sem reclamar? Não existe mais, verduras e legumes não passam mais despercebidos dentro do bolinho de carne, o guri tá esperto. Tão inteligente que suas lições de casa têm me obrigado a procurar toda aquela matemática esquecida em algum compartimento mental muito bem escondido, para não passar vergonha.  Tirando isso, ‘dá trabalho nenhum não’, contei. A colega do lado, mãe de um adolescente, alguém que chegou ao nível very hard da maternidade, nos avisa para apertar os cintos, que a coisa, olha só, ainda vai ficar muito mais radical. Rimos alto.

Toca o celular. É o Samuca, que já aprendeu a anotar o número de telefone das pessoas queridas em seu caderninho para ligar vez ou outra e bater papo. “Mamain, eu já te contei que sinto saudades quando você vai trabalhar?”, pergunta. Fico emocionada, ele diz que me ama muito, muito, muito e eu prometo buscá-lo na saída da escola. Ao desligar, percebo que esqueci de um detalhe muito importante: quando eles crescem, também aprendem a falar de todo o amor que sentem, e isso é maravilhoso. A gente ‘ganha vidas’, iguais as do Candy Crush, e fica mais forte e disposta para enfrentar o próximo nível desse game chamado maternidade.

Leia mais: O que aprendemos com as amigas que ganhamos na porta da escola dos nossos filhos 

Leia também: Cartas às mães e aos pais das crianças banguelas 

Aproveite e baixe o capítulo zero do meu livro, Mãe Sem Manual.

Documento