Ser mãe pode ser uma maravilha, a realização de um sonho, ou algo frustrante e ruim, dependendo das expectativas e da vida que cada um leva. Mas existe algo sobre a maternidade que é indiscutível: é chegado o momento de entender a mãe da gente.

Você jura de pés juntos que vai fazer diferente do que ela fez: não vai gritar com seu filho (porque sua mãe era adepta de um bom berro) ou vai ser daquelas que prega aos quatro ventos que criança precisa mesmo é de limites (sua mãe não tomava uma atitude nem se você e seus irmãos botassem fogo na casa). A ordem do dia é fazer o contrário, para ser uma mãe melhor. Temos certeza absoluta que somos muito mais evoluídas que as nossas mães. Óbvio que somos.

Claro que elas tinham qualidades. Centenas, milhares. Faziam um cafuné maravilhoso, um bolo de banana para comer de joelhos e davam conta de tudo sem ajuda alguma em tempos em que os homens se recusavam a lavar até o próprio prato de comida. Mas também erraram com a gente, né? E você começou a perceber isso logo na pré-adolescência, quando sua santa mãezinha começou a pegar no seu pé (que não parava de crescer).

Minha mãe me proibiu de assistir à novela Roque Santeiro. “Como assim não posso ver a Viúva Porcina e o Sinhozinho Malta? T-o-d-a-s as minhas amigas da escola assistem!”, choraminguei, revoltada. “Você não é todo mundo!”, escutei. “Mas eu já tenho 9 anos, mãe!’ , insisti. Nada feitoMinha mãe começou a se candidatar ao título de pior mãe do mundo nessa época e lutou bravamente pelo certificado nos anos seguintes. Eu não podia ficar na rua até tarde e nem viajar com amigos cujos pais ela não conhecia. Ou não gostava. Ou dirigiam de forma irresponsável. Ou eram malufistas. Ela me passava inúmeros exercícios chatos para que eu melhorasse a letra cursiva e meu material escolar tinha que estar sempre impecável, senão eu ficava de castigo (mas nunca fiquei, rá.). Eu escutava por aí que as mães eram todas iguais, só mudava o endereço. Mas eu achava que a mais chata de todas tinha o mesmo CEP que o meu, que azar.

O tempo passou, a adolescência (ufa!) idem, a maturidade aparou as arestas e nos tornamos boas amigas. Mas minha mãe partiu antes de sua total redenção. E se ela não fosse uma santa eu poderia apostar que está lá no céu tomando uns bons drinks e rindo muito de todos os perrengues que eu tenho enfrentado. “Quanto você tiver seus filhos vai me entender, Rita de Cássia!”, vaticinava. Urgh. Eu odiava quando ela usava meu nome composto. Ou quando me rogava praga no futuro do subjuntivo.

Mas o futuro chegou semana passada, quando meu filho reclamou que t-o-d-o-s os amigos dele tinham celular, menos ele. “Mas você não é todo mundo!”, euzinha disse. A frase saiu dos meus lábios sem passar antes pelo meu cérebro. E quando me dei conta que tinha me transformado em uma versão gourmet da minha mãe, paralisei. Voltei a raciocinar e repeti o mantra “vou fazer diferente dela, vou fazer diferente dela”. Ouvi as reclamações do meu filho, expliquei minhas razões e, claro, ele continua sem celular porque “se eu falei não é não!” Mentira, eu não disse isso, eu jamais falaria isso. Ele ficará sem smartphone (por mais meia década, pelo menos) e ganhará um quando eu acreditar que está maduro para usá-lo, expliquei com carinho. E fiquei orgulhosa pra caramba pelo canal de diálogo que temos, confesso. Um ponto pra mim, zero para minha mãe escondida na minha mãe interior.

Mas o exercício de autocontrole é diário. Semana passada usei a famigerada frase“na volta a gente compra” para encerrar um assunto sem a discussão de seu mérito, porque conversar dá trabalho e nem sempre a gente tem tempo ou está a fim. Sim, somos humanas e temos lá nossos maus momentos. Só que daí meu filho, que é meu filho, começou a querer problematizar e me disse que tinha reparado que, atenção, spoiler: na volta a gente nunca compra e isso não é justo! Eu, cansada e com dor de cabeça disse que ele estava certo, pedi desculpas e disse que quando ele for grande e tiver filhos, vai me entender.

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