Menina berra quando conhece Papai Noel em uma festa de família em 1964. Foto: Getty Images

Menina chora copiosamente quando conhece o Papai Noel em uma festa de família em 1964. Foto: Getty Images

Samuca a-do-ra Papai Noel. Desde pequeninho. Sempre fala empolgado sobre o bom velhinho, recebe ligações dele (há um aplicativo ótimo com mensagens chamado Santa Calls), nunca teve medo da figura barbada de roupa vermelha e pede, todos os anos, para tirar aquelas tradicionais fotos com o Papai Noel no shopping. Temos uma coleção delas. E, por isso, fim de semana retrasado estávamos nós (de novo) na fila para tirar (mais) uma foto com o tal bom velhinho. Uma família entrou na fila atrás da gente, sob protesto da filha do casal, uma menina de uns 3 ou 4 anos. Puxando a mãe pelo braço, tentava convencê-la de que o encontro com o Papai Noel não era uma boa ideia.

– “Eu não ‘quelo’ ir, mamãe!”, implorava a menina, que nesse momento descobri o nome, Helena.

– “Vamos, Helena!  Vamos tirar uma foto com o Papai Noel para mostrar para o vovô e a vovó!”

Os pais insistiam, puxaram Helena pelo braço, depois a pegaram no colo. Era nítido que tinha h-o-r-r-o-r ao bom velhinho. Ela se esticava toda em protesto, como se quisesse escapar ou ser ejetada do colo do pai, antes que fosse obrigada (a palavra é essa mesmo, sorry) a sentar no colo de um velho barbudo completamente desconhecido e que para ela não significava nada além de pavor. A menina foi distraída até chegar sua vez. Chorou e foi consolada pelo próprio e bem-intencionado Papai Noel. Eu não vi a foto mas duvido que tenha ficado bonita. A menina não estava feliz. Ela não conseguia sequer sorrir.

Garotinha chilena cho-ca-da ao chegar bem perto do bom velhinho no Natal de 2007. Foto:Santiago LLanquim

Garotinha chilena cho-ca-da ao chegar bem perto do bom velhinho no Natal de 2007. Foto:Santiago Llanquim

O Papai Noel é uma fantasia de Natal que cada família tem a liberdade ou não de curtir. Algumas pessoas têm boas lembranças de infância porque adoravam a expectativa da chegada de Noel na véspera de Natal. Outras sentiram-se enganadas assim que perceberam que nada daquilo era verdadeiro. Cabe a nós, pais, analisar qual a importância que essa figura lendária vai ter na vida dos nossos filhos. Se sua cria gosta do bom velhinho, ótimo. Se ela não gosta, ótimo também. Ué, a gente é obrigado a gostar de todo mundo nessa vida?

Assim como Helena, muitas crianças abrem o berreiro assim que se deparam com o Papai Noel (e não só no shopping). Alguns pais entendem o choro, mudam o foco e tiram a criança de perto. Outros veem a oportunidade de consolidar, naquele momento, uma das maiores falácias de Natal: falar que a criança tem que ser “boazinha” para só aí ser merecedora dos presentes de Natal. “Vamos lá com o Papai Noel, seja bonzinho, filho!”. “Se você não for dar um beijo nele, o Papai Noel não vai te trazer presente nenhum!”, são frases ouvidas à exaustão, basta passar meia hora em um desses stands. Mas, em casa, teve o “se não jantar tudo o Papai Noel não vai vir esse Natal” o “se não for dormir cedo eu vou contar tudo para o Papai Noel” e por aí vai. Pobre São Nicolau, não merecia ter seu nome envolvido em meio a tanta chantagem emocional.

Mas voltemos à Helena, que personifica a figura de tantos meninos e meninas que não são “bonzinhos” porque não querem sentar no colo de um estranho em troca de balas e promessas de presentes. Vocês estão certos. A mamãe e o papai não falam o ano inteiro que vocês não podem aceitar nada de estranhos? Que vocês não podem responder ao chamado de quem não conhecem? Pois bem. Vocês são crianças e só seguiram a orientação do seus pais. O Papai Noel é adulto, vai entender. E se mesmo frente a tal rejeição o tal bom velhinho decidir mandar presentes para vocês (e eu aposto que vai) isso só vai provar que ele, mesmo parecendo meio louco ao se vestir de veludo num calor desses, deve ser mesmo um cara muito legal.