Dra. Melania Amorim (à direita de verde) e sua equipe de parto humanizado

Dra. Melania Amorim e equipe fazendo a “rosa da humanização”. Obstetras, enfermeiras, neonatologistas, fisioterapeutas e doulas se abraçam como símbolo da confiança e do trabalho em equipe. Foto: Arquivo Pessoal

Dra. Melania Amorim, 48, é uma das principais referências quando o assunto é parto humanizado. E não é “parteira comedora de placenta”, como muitos gostam de classificar (pejorativamente) as defensoras do parto normal e de uma assistência mais humana e digna às gestantes. É médica formada pela Universidade Federal da Paraíba, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, leciona em universidades, e é uma das principais pesquisadoras brasileiras. Também escreve um blog, o “Estuda, Melania, Estuda“, que é citado e compartilhado exaustivamente em grupos de mães que buscam mais informações sobre parto. Ela apóia a presença de doulas, mulheres que dão conforto físico e emocional da parturiente, na sala de parto. “Eu adoro trabalhar com doulas”, afirma.

Blog: Você criou um blog que é um “hit” da humanização o “Estuda, Melania, Estuda“. Por que criar um blog?

Melania: A história de como o blog começou é bem engraçada. Em agosto de 2012, em uma discussão sobre a marcha pela humanização do parto eu, por acaso, comecei a debater com uma pessoa que se apresentou como ex-estudante de Enfermagem e estudante de Medicina. Ele apresentou essas credenciais para afirmar, “com toda a propriedade”, que “essa história de parto humanizado é pura bobagem”. Eu rebati, é lógico, mas ele estava pensando que eu era doula ou enfermeira – o que não justifica, é claro, a falta de educação e de respeito em um debate. Ele disse, para encerrar a conversa, “que eu era muito burra e que devia estudar”. Acabei achando muito engraçado e como já acompanhava o blog da Lola, o “Escreve, Lola, Escreve”, achei a oportunidade ótima para criar o meu “Estuda, Melania, Estuda”. Pode ter um toque de ironia, mas é bem verdade, todos precisamos continuar estudando. Sempre. Inclusive eu cito muito Raul Seixas em várias aulas minhas, quando falo “vou desdizer aquilo tudo o que eu disse antes”, porque a Medicina muda, a Obstetrícia muda, estamos sempre acompanhando o surgimento de novas evidências e não dá mais para manter “aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Durante o parto humanizado, as mulheres são estimuladas a parirem da forma que for mais confortável.

Durante o parto humanizado, as mulheres são estimuladas a parir da forma que for mais confortável. Foto: Arquivo Pessoal

Blog: Um dos posts que acredito ser um dos mais populares em seu blog, já que vejo sempre sendo compartilhado no Facebook, é o que fala sobre as indicações reais e fictícias de cesariana. Gostaria que você citasse os motivos mais alegados pelos médicos para uma cesariana e que são pretextos para fazer uma cirurgia em vez de esperar o parto normal.

Melania: Esse post nasceu de uma coletânea de pretextos e indicações estapafúrdias de cesariana que eu venho tomando nota há anos, não somente através de depoimentos de mulheres nas redes sociais, mas também por encaminhamentos que recebo de alguns colegas. Eu começo o post listando algumas das indicações reais de cesariana, cientificamente respaldadas e certamente salvadoras, mas há algumas supostas indicações que se eu não estivesse lendo não me ocorreria acreditar, como miopia, glaucoma, gengivite, asma e tantas outras.

Dentre as indicações fictícias, os motivos mais frequentemente alegados são cordão umbilical enrolado no pescoço, bebê “grande demais” (incluindo desproporção cefalopélvica sem a mulher sequer ter entrado em trabalho de parto) ou “pequeno demais”, cesárea anterior e bolsa rota. Vale constar que há algumas circunstâncias em que pode haver indicação de antecipação do parto, mas em que não é obrigatória a cesariana, como hipertensão e diabetes, tudo vai depender do contexto clínico, da idade gestacional, da condição materna e fetal. O que não se concebe é, por exemplo, fazer uma mulher com 37 semanas e hipertensão acreditar que o único tratamento para seu caso é uma cesariana.

Dra. Melania e sua doula, que estava ao seu lado durante o nascimento do filho caçula,  Joaquim.

Dra. Melania e sua doula, que estava ao seu lado durante o nascimento do filho caçula, Joaquim. Foto: Arquivo Pessoal

Blog: Há muita polêmica nas redes sociais envolvendo médicos e ativistas da humanização. Médicos afirmam que apenas eles podem conduzir um parto, que doulas atrapalham e que parto só pode ser no hospital. Isso é realidade ou uma forma de corporativismo?

Melania: Não entendo como a doula pode atrapalhar. O que o médico precisa entender é que a doula não está lá para confrontá-lo, ou porque a mulher desconfia dele, mas porque é uma escolha que precisa ser respeitada e que é baseada em evidências científicas consideráveis. Claro que as doulas devem conhecer os limites de sua atuação e não podem intervir na conduta obstétrica, isso a gente deixa muito claro nos cursos de formação, e toda doula que trabalha com seriedade sabe disso. Porém, se o médico ou a enfermeira obstétrica que está prestando assistência ao parto não estabelece um bom vínculo com a mulher, não explica o que está acontecendo ou como e por que vai fazer algum procedimento, é bastante normal que a mulher ou a doula possam questioná-lo, para entender o motivo. Em mais de 10 anos trabalhando com doulas eu nunca encontrei nenhuma questionando minhas condutas ou extrapolando o limite de suas atribuições.

Blog: Quais são as vantagens de tê-las por perto?

Melania: Por mais que eu insista em “obstare” (estar ao lado), principalmente no SUS, eu não dou conta sozinha de fazer todo o acompanhamento obstétrico e ainda proporcionar suporte emocional ou ofertar todos os métodos não farmacológicos para alívio da dor. Em nossa equipe, nos plantões, comumente estão acontecendo dois, três partos ao mesmo tempo, e nós não somos oniscientes, onipotentes e onipresentes. Isso não impede que a gente, profissional de saúde, “doule”, acolha a mulher, faça massagem, ofereça apoio. Mas a doula faz isso melhor, isso já tem comprovação científica. Eu adoro trabalhar com doulas. Quando fizemos aquela campanha em prol da presença de doulas em 2012 eu fiz questão de posar com minha doula, que me deu apoio durante o trabalho de parto de meu caçula, Joaquim, com a chamada: “Eu tive uma doula e foi tudo de bom”.

Brasil é o campeão mundial de cesarianas.

“Somos nós que seguramos o bisturi e que operamos. Não podemos fugir de nossa responsabilidade”, comenta sobre os índices alarmantes de cesarianas no Brasil

Blog: Vivemos uma epidemia de cesarianas no Brasil. Por que chegamos a esse ponto? Qual o papel que os médicos têm nesses altos índices?

Melania: A epidemia de cesarianas no Brasil é alarmante: chegamos em 2014 a 56% de partos cesarianas. De cada 10 cesáreas, quase 9 delas estão no setor privado. A etiologia é multifatorial, não pode ser atribuída apenas aos médicos. A banalização da operação cesariana começou a ocorrer desde a década de 70 com o pretexto de ligadura tubária. Desde então acompanhamos o crescimento das taxas. Hoje em dia o Brasil é o líder inconteste, o campeão de cesarianas no mundo. Caracteriza-se o paradoxo perinatal brasileiro, porque a par desse excesso de cesarianas e de partos com múltiplas intervenções, ou seja, com um excesso de tecnologia, a mortalidade materna, perinatal e neonatal continuam elevadas.

Não gosto da ideia de “culpar” os médicos como os vilões da cesariana, mas o fato é que somos nós que seguramos o bisturi e que operamos. Não podemos fugir de nossa responsabilidade. Há um nítido descompasso entre o discurso de alguns médicos, que responsabilizam as mulheres pelo desejo de uma cesariana (o que é legítimo, desde que essa mulher seja escutada, compreendida e informada), e o discurso das mulheres, que apontam centenas de pretextos que lhes foram passados para justificar uma cesariana.

As mais recentes evidências, como a pesquisa “Nascer no Brasil” (2014) apontam que, apesar de tudo, e com a triste realidade de partos vaginais repletos de intervenções desnecessárias e prejudiciais, a maioria das mulheres brasileiras, ou seja, 70% delas, continuam querendo ter um parto  normal. Ao longo do pré-natal é que vão surgindo as tentativas de minar sua confiança e autoestima.

No SUS as mulheres são muitas vezes obrigadas a um parto vaginal cheio de intervenções, ninguém respeita suas escolhas, salvo raras e honrosas exceções de lindas iniciativas que devemos aplaudir. Na clínica privada parece não haver outra alternativa se não a cesariana. A lógica está distorcida, os planos de saúde pagam uma ninharia pela assistência ao parto e as contas de um consultório simplesmente não fecham se você for atender parto normal pelo convênio. Quando eu digo que esse modelo é perverso, também quero destacar que ele está falido. Em longo prazo, ninguém aguenta, e é por isso que tem muita gente deixando de fazer Obstetrícia em consultório. Existem outros problemas, como o treinamento inadequado dos residentes em seus programas para atender ao parto normal, com taxas altíssimas de cesariana e partos repletos de intervenções, com muito mais casos de alto risco do que de baixo risco. Há vários jovens médicos que terminam a residência inseguros, achando uma solução mais fácil na cesariana.

O post com a lista de indicações absurdas de cesarianas está liberado para o livre compartilhamento.

O post com a lista de indicações absurdas de cesarianas está liberado para o livre compartilhamento. Foi feito depois de colher depoimentos de mães e colegas da saúde. “Miopia, gengivite e até asma já foram dadas como desculpas para uma cesariana”, conta.

Blog: Quais são as taxas de cesarianas e parto normais de suas equipes? Como conseguem atingir esses números?

Melania: Nossa taxa de cesariana dentro do projeto de humanização da assistência ao parto no ISEA, Instituto de Saúde Elpídio de Almeida, em Campina Grande, é atualmente de 8,6%, mesmo incluindo gestações entre 28 e 43 semanas e com várias gestantes de risco (mais de 10% delas têm pré-eclâmpsia, por exemplo), a mortalidade neonatal é menor que 0,2% e os desfechos maternos e perinatais são excelentes.

Nesse projeto que é bem famoso nacional e internacionalmente conseguimos provar que mesmo em situações adversas é possível humanizar a assistência ao parto, assegurar a retomada do protagonismo e ainda prestar todos os cuidados baseados em evidências. A maternidade é pobre e tudo é bancado pelo projeto com nossos próprios recursos.

Blog: Como foi sua formação em relação ao parto? Quando e por que você questionou o que aprendeu e mudou sua forma de ver o nascimento?

Melania: Minha formação foi absolutamente tradicional e tecnocrática, com o único diferencial que muito cedo eu fui apresentada aos postulados do obstetra francês Frédérick Leboyer. Meu pai foi pioneiro na cidade em assistir partos com essa filosofia que foi, de certa forma, precursora do que hoje conhecemos como humanização da assistência ao parto.

Quando entrei no Mestrado em 1993, descobri, estudando metodologia científica, que havia um novo paradigma em foco, descrito desde 1992 por pesquisadores da Universidade McMaster no Canadá, que se intitulava “Medicina Baseada em Evidências”. Foi uma descoberta fascinante e eu passei a questionar todo o modelo em que estava inserida. Descobri que já havia ensaios clínicos, desde 1984, mostrando os efeitos prejudiciais da episiotomia de rotina (corte no períneo feito durante o parto normal), só para dar um exemplo. O que aprendi na faculdade, como internar cedo as mulheres, deixá-las em jejum, fazer raspagem dos pelos, obrigá-las ao repouso no leito, não permitir acompanhante, ter o parto em litotomia (quando a mulher fica deitada de barriga para cima na hora do parto), episiotomia de rotina, tudo isso passou a ser apontado como desnecessário e muitas vezes prejudicial.

Quando realmente a gente abandona o modelo intervencionista e pode ver um parto natural sem intervenções, ou com intervenções somente quando necessário, quando a gente para de contar o tempo no relógio e se mantém ao lado para apoiar, esperar uma mulher entregue ao trabalho de parto, quando você se depara com cenas belíssimas como o mágico momento em que uma mulher que acaba de parir se (re)encontra com o seu bebê, assistindo ao nascimento ou renascimento de uma família, é inevitável que você se entregue por completo ao novo modelo.

Tesoura

“Já havia ensaios clínicos, desde 1984, mostrando os efeitos prejudiciais da episiotomia de rotina (corte no períneo feito durante o parto normal).”

Blog: O médico é necessário durante o parto? Há outros profissionais capazes de conduzir um parto normal?

Melania: Em qualquer serviço bem estruturado em hospitais com bons modelos de prática obstétrica, há uma divisão de tarefas, os médicos são encarregados de assistir os partos das mulheres de alto risco e a atenção aos partos de baixo risco é feita por enfermeiras obstetras ou obstetrizes. Os médicos também são acionados para resolver eventuais emergências, é lógico.  Foi assim que a Princesa Kate Middleton pariu, como todos sabem, dentro de uma suíte de parto no hospital, assistida por duas obstetrizes, com os médicos do lado de fora para atuar somente se sua presença fosse necessária (e não foi). Eu acredito muito nesse modelo transdisciplinar de assistência ao parto, com espaço para a atuação de diversos profissionais.

Blog: O que pensa sobre o aborto?

Melania: Complicações de aborto são a quarta causa de morte materna no Brasil e estão associadas a graves sequelas para as mulheres em todos os países onde sua prática é ilegal, clandestina, o que afeta particularmente as mulheres pobres. A mulher que quer abortar, independentemente da legislação de seu país, vai abortar, porque se encontra em uma situação em que para ela essa é a única solução. Se ela vai fazer isso de forma segura ou não, aí vira um problema de saúde pública. As mulheres ricas e de classe média, quando abortam, mesmo clandestinamente, o fazem de forma segura, e raramente têm complicações. As pobres, especialmente as pardas e negras, com baixa escolaridade, excluídas do sistema, que não encontram orientação nem acolhimento, são essas que procuram soluções desesperadas, usam métodos perigosos e, portanto, apresentam complicações graves e morrem.

Não se trata de ser contra ou a favor, o tema é forte e desperta intensa polêmica, uma polarização que é indesejável, porque o problema não é a minha opinião pessoal, ou a de quem quer que seja, porque a questão filosófica, religiosa, de foro íntimo, deve ser respeitada, o problema é o que os abortos inseguros representam em termos de saúde pública e de direitos reprodutivos.

Evidências consistentes corroboram que, a par da contracepção efetiva, a oferta de programas de aborto seguro E atenção pós-aborto não apenas reduzem as complicações e as mortes maternas, mas reduzem o número de abortos provocados.

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