Tão certa quanto a chegada do Papai Noel nos shoppings é a lotação das maternidades durante as próximas semanas. E a partir de agora, um sem número de diagnósticos catastróficos começam a ser feitos nos consultórios de todo o Brasil, pode reparar. Bebês até então com o percentil normal começam a ficar “grandes demais”, sendo impossível que nasçam de parto normal, bora marcar uma cesárea ur-gen-te para trazer essa criança ao mundo? Que tal sexta às 18hs, no final do expediente? (Mas hoje ainda é quarta, não era urgente?!)

Também começam a surgir crianças enroladas em cordões umbilicais que, parece, têm vida própria e ficam agitados nessa época do ano. Será que decidem se transformar em laços bem grandes como os dos pacotes de presente de propósito, pura inveja, ameaçando enforcar os bebês que se atreverem a nascer como Jesus, filho de Maria e José? Para essas crianças travessas que se mexeram demais e se enlaçaram todas nos úteros de suas mães, cesáreas de emergência,  marcadas para dali a dois três dias. (Mas não era uma emergência?)

As mamães também não colaboram, que genética ruim é essa a das novas gerações? Mesmo depois de engordar mais de uma dezena de quilos durante nove meses e de não entrar em nenhuma calça do planeta (porque o quadril triplicou de tamanho), a mulher brasileira não tem “passagem” para dar à luz seus filhos,  são “estreitas demais”. Nós, brasileiras abençoadas por Deus e cadeirudas por natureza, seríamos geneticamente incapazes de colocar nossos filhos no mundo? Enquanto fazemos essa pergunta aos deuses, assistimos do sofá, resignadas e com uma cicatriz na barriga, à magrela Kate Middleton parir como uma rainha dois principezinhos pesando 3 quilos e setecentos gramas bem pesados cada. Kate saiu linda e loira do hospital dias depois e, hoje, grávida do terceiro filho, promete dar à luz em casa, bem longe da casa de parto – a genética desses britânicos deve ser uma coisa de louco mesmo.

Brincadeiras à parte e ironia a postos, atenção: Um país que ostenta o título de campeão mundial de cesáreas tem algum problema, não é possível. Se nos é tirado o direito de parir, que a gente não abra mão do direito de pensar: se a cesariana é tão boa por que o Brasil ainda tem índices assustadores de morte materna e neonatal? Por que as UTI´s estão sempre cheias de recém-nascidos que tiveram problemas para respirar em seus primeiros instantes de vida? (Atenção, spoiler: porque ainda não estavam prontos para nascer e foram retirados da barriga de suas mães uma, duas e até três semanas antes do tempo, obrigada, de nada.)

E como o Natal é uma época de desejar coisas boas ao mundo, a você, gestante, eu faço votos que abra o olho. Papai Noel não existe e um monte das mentiras cabeludas que nos contam também. E às mulheres que devem entrar em trabalho de parto neste final de ano eu desejo vaga nas maternidades. Elas estarão lotadas com aqueles bebês que estavam precisando de um tempinho extra na barriga, mas que foram retirados de lá em nome de qualquer coisa, menos da saúde e do bem estar deles e de suas mães.

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