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Cuidar das crianças é responsabilidade da mãe, sinaliza a lei, quando estabelece que a licença-maternidade é de quatro a seis meses, enquanto a licença-paternidade é de míseros cinco dias (às vezes 20, quando a empresa é ‘bacana’ e dá uns dias a mais ao pai em troca de incentivos fiscais, não existe almoço grátis, não é mesmo?).  Acabando esse período onde praticamente só a mãe se responsabiliza pela sobrevivência do filho, temos de voltar ao trabalho, por que nosso salário é parte essencial da renda da casa e, afinal, com uma criança na família as despesas aumentam, não dá nem para pensar em reduzir a jornada – agora temos que pagar  a babá e depois a escolinha, o judô, a natação e o curso de inglês, meu Deus, a grana não vai dar para isso, tenho/temos que trabalhar ainda mais. E no momento em que você, acompanhada de outra pessoa ou não, decidiu aumentar a família, em vez de desacelerar, curtir a paisagem e o momento, apertou o passo, dobrou a meta, percebeu que tinha que ganhar mais e mais e, como consequência, perdeu um tempo precioso com as crianças.

Quando meu filho era pequeno e me perguntou a razão pela qual eu trabalhava, tentei explicar de uma forma simples, deixando de lado a relação entre o meu ofício e a realização pessoal (que erroneamente eu achei que complicaria demais a resposta) e focando na ideia que um salário suado pingava na minha conta no final do mês. Expliquei que eu e o papai precisávamos do dinheiro para pagar as contas e comprar as coisas que ele mais gostava – aquele Yakult que você toma todos os dias a mamãe compra com o dinheiro do trabalho dela e do papai, filho. Sabido como só uma criança sabe ser, decretou que então não queria mais o Yakult, pronto, resolvido mamain.  E assim a gente segue engolindo o choro, umas mães mais divididas, outras menos, todas, contudo, equilibrando expectativa, realidade e o próprio coração, como aqueles malabaristas do circo que tentam evitar que qualquer uma daquelas peças se espatife no chão, inviabilizando a continuação do espetáculo.

Claro que precisamos de ajuda, quem não precisa? Em certo momento a escola vira parceira e nos auxilia na tarefa de cuidar e educar nossos filhos enquanto precisamos trabalhar, inclusive para pagar o colégio. A gente passa cada vez mais tempo fora, mas a escola oferece almoço para nossos filhos – quando eu me senti uma porcaria de mãe porque não tinha tempo nem de fazer uma refeição decente para o meu filho, meu marido me tranquilizou dizendo que eles cozinhavam melhor do que nós, olha só que coisa boa, bora engolir essa culpa e comemorar a comidinha equilibrada que oferecem para eles e que a gente pode pagar, amém.

Mas a escola deveria ser aquela amiga que nos dá um chacoalhão. Que avisa que você e seu marido estão “trabalhando demais”, que seu filho sente a falta de vocês, que nos olha nos olhos e percebe que ninguém está feliz do jeito que as coisas estão. Que puxa sua orelha quando você está atrasada, quando falta na reunião, quando esquece de carregar o cartão do lanche. Que te lembra que o filho é do casal, virem-se, ele precisa de vocês e não da gente. A escola do meu filho é assim, ainda bem.

Mas fiquei surpresa em ver que o dinheiro tem falado mais alto e nossas fraquezas viraram nicho de mercado ao ler matéria semana passada aqui no Estadão. Em vez de olhar no olho e te dizer que existem coisas que o vil metal não compra, algumas escolas têm fingido que está tudo bem seu filho ir para casa só para dormir no final do dia. Fique tranquila, se você me pagar eu corto o cabelo do seu filho, lavo o uniforme do seu filho, faço a comida do fim de semana do seu filho. Para que você não se sinta um lixo, eles te oferecem a desculpa ideal por mais alguns tostões, dizendo que assim você terá “tempo de qualidade com ele”. Ora, ora. Eu achando que ‘qualidade’ era a gente ter um embate na porta do salão infantil  porque quero que ele mantenha o corte de bebê enquanto ele quer ficar quase careca igual ao amigo, que ele ache meu macarrão com almôndega uma delícia, mesmo sabendo que eu sou uma negação na cozinha e que tenha medo de não colocar o uniforme no cesto de roupa suja porque eu fico uma arara quando encontro bagunça no banheiro. Achei que tempo de qualidade era ele perceber que, mesmo cansado depois de um dia do trabalho, o pai dele esfrega meias imundas como ninguém.

Mas tempo de qualidade não é isso, vai ver que estamos enganados. Se seu filho chegar em casa de cabelo cortado, banho tomado e barriguinha cheia, vai te poupar um trabalhão. Mas filho dá trabalho, dizem. Quem não quer tanta trabalheira adota um cachorro, dizem também. Dia desses soube que existem fraldas para cachorro que NÃO podem substituir o passeio com seu pet. Porque até eles, veja só, precisam de tempo de qualidade com seus donos.

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