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Ilustração: Felipe Blanco

Claro que a morte já tinha esbarrado com a gente por aí. Mas foi a primeira vez que ela bateu na porta e entrou. A primeira vez, desde o nascimento do meu filho de cinco anos, claro. A notícia de que meu sogro tinha morrido chegou na tarde de sábado. Mais ou menos 450 km nos separavam, o que fazia com que esse avô não fosse o mais próximo, mas mesmo assim meu filho tinha lembranças fortes do último encontro de família nas festas de fim de ano. “É aquele que me deu um montão de manga, mamãe?” Sim, filho. Que beleza de última imagem para se ter de um avô, não? Vai ficar na memória como o avô que morava em uma casa com uma mangueira no quintal e que liberava o neto caçula para pegar quantas frutas quisesse, pendurado nos ombros do pai.

No início, a dúvida: levar ou não as crianças para o velório? Meus enteados de 15 e 11 anos decidiram ir. O pequeno logo começou a catar seus brinquedos ao ouvir que estávamos nos aprontando para pegar a estrada rumo ao Rio de Janeiro porque, para ele, a cidade maravilhosa é sempre sinônimo de diversão. E enquanto arrumávamos as malas e recolhíamos os cacos, meu filho pediu para que eu não esquecesse de levar sua sunga. “Ele não está entendendo nada”, pensei.

Quando chegamos ao cemitério, Samuca não queria entrar. E me disse que era porque nos cemitérios havia zumbis “que saem das tumbas, mamãe”. Percebi que se a gente não fala sobre a morte com os nossos filhos o mundo fala, só que de um jeito errado. Expliquei que o cemitério era um lugar de paz e saudade e que precisávamos nos despedir do vô. Ele acreditou e lá fomos.

Deixei ele à vontade. A primeira coisa que quis fazer foi ver o avô. Depois nos encheu de perguntas, entre elas sobre o porquê dele ter morrido, para onde as pessoas vão quando morrem, “por que todos estão chorando, mamãe?” Respondi a todas as questões, de acordo com nossos valores e crenças. “O vô foi para o céu”. “As pessoas estão chorando porque já estão com saudade dele, filho”. E por aí foi. Confesso que estava um pouco mais madura para lidar sobre o assunto porque, ano passado, entrevistei Frei Betto sobre o livro que ele lançara, “Começo, meio e fim”, explicando a morte para as crianças. Frei Betto acredita que os pequenos têm de participar desses ritos de passagem, como velório, enterro ou cremação. Depois dessa conversa decidi que ia sempre falar a verdade, nada além da verdade, nada mais que a verdade para o meu filho.

Os sinais de que tínhamos escolhido o caminho certo logo vieram. Samuca pela primeira vez pensou sobre a vida, no auge dos seus cinco anos recém completados, e procurou meu ouvido para uma confissão: “ainda bem que não fui eu que perdi meu pai, né mãe?” À noite, depois do banho, pediu que eu o ajudasse a apagar do tablet o joguinho dos zumbis do cemitério porque “esse jogo é assustador e não tem nada a ver com a vida de verdade, mamãe!” Apagamos o jogo e pensamos juntos sobre como tinha sido linda a vida do avô. “Ele me deu seu pai, que me deu você”, falei. Samuca sorriu. E perguntou se no dia seguinte podíamos ir à praia.

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