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Não, não. Criança não namora. E essa é uma das máximas mais difíceis de entrar na cabeça dos adultos. Não precisa ser dia dos namorados –  o 12 de junho pode estar longe do calendário – para seu filho, ainda preso a um gugudadá bem básico, ouvir a tal pergunta fatídica de algum tio do pavê, principalmente se já estiver frequentando o jardim de infância.

– E aí? Como estão as namoradinhas?

– Bu Bá Dá a buuuu

– Aposto que as menininhas estão apaixonadas por você!

– A guuuu Da dá

Mães e pais de meninas não ouvem essa pergunta porque as meninas são vistas desde bebê como aquelas que “têm que ser dar ao respeito”, enquanto os meninos, esses sim, são estimulados a serem “pegadores” desde as fraldas, que tristeza.

A relação entre meninos e meninas, na infância, não é amorosa, ninguém está “de olho” em ninguém.  Eles desenham juntos, jogam bola juntos, brincam de casinha, de médico, de pega-pega, de queimada, no escorregador, no gira-gira e no balanço porque é legal brincar em turma. Porque criança adora criança. Apenas isso, olha só que coisa boa. A vida dos pequenos é tão simples, não há razão para problematizar, constranger, estimular, cobrar.

Mas os adultos não aguentam. Ai, esses adultos. São eles que precisam ser convencidos que a relação natural entre meninos e meninas que ainda estão longe da adolescência é de amizade.

“Mas meu filho acha a Sofia linda!” Sim, todos achamos. Ela é fofa, meiga, articulada, empresta os brinquedos para todos os colegas de classe e fica triste junto quando algum deles se machuca. A Sofia é uma linda e o que amigos sentem por ela é amizade, gratidão. Não é paixão! Portanto, quando seu filhote te contar o quanto a Sofia é legal, responda que também acha, todos achamos. Simpatia, na infância, não é amor. Não aquele amor que conhecemos nos filmes, nas novelas e na vida real. Não confunda tudo, você tem discernimento. O adulto, olha só, é você.

E quando a Sofia contar a você que o Mateus é ótimo, esperto, rápido no pega-pega e bom amigo, ouça sua filha com um sorriso e jamais, em tempo algum, diga um “ah, sei”. Não. Não faça isso. Não seja essa pessoa. Não queremos que nossa pequena, ainda tão pequena, acredite que não existe amizade entre meninos e meninas. Muito menos diga para que ela se arrume mais, “agora que o Mateus está de olho em você”. Ou que penteie o cabelo, coloque uma tiara, não use saia, ou use saia, para parecer mais bonita. Porque daí ela vai começar a acreditar, já que a mamãe e papai estão dizendo, que as pessoas gostam da gente pelo que a gente aparenta ser e não pelo que a gente é. E pior, muito pior: que as mulheres precisam estar sempre lindas e impecáveis para serem queridas. Que tragédia. Quantos problemas adultos simplesmente não existiriam se a gente tivesse aprendido, lá na infância, que não precisamos ser assim ou assado para sermos amadas.

Claro que nossos filhos, uma hora ou outra, vão se apaixonar de forma platônica. Quem não lembra do primeiro amor? Desconfio até que meu filho, de 7 anos, já tenha uma eleita. Dia desses me contou como uma amiga é inteligente e bem-humorada. “Adoro ela, mamãe!” Disse que também acho ela ótima. Uma menina que carrega sempre um sorriso no rosto, um cabelo sempre bagunçado de tanto brincar e tem aquela beleza que só as crianças felizes têm conquista o coração de qualquer um.

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