MarianaA atriz e roteirista Mariana Elisabetsky, 36 anos, assistiu às mulheres da família enfrentarem o câncer de mama muito jovens. A avó e a tia tiveram tumores de mama antes dos 40 anos e, por isso, foram incluídas em um protocolo de pesquisa genética da Faculdade de Medicina da USP, a Universidade de São Paulo, no final dos anos 90. Descobriram, em uma época que ninguém falava disso, que tinham uma mutação no gene BRCA, que explicava porque as mulheres da família enfrentavam a doença tão cedo: era a genética dando as cartas. A mutação foi pesquisada em toda a família. O pai de Mariana tinha, ela também. Com essa mutação, as chances de Mariana ter um tumor de mama eram de até 71%. A probabilidade de um tumor de ovário era de até 44%. “Isso ficou martelando na minha cabeça, tive de ir pra terapia. A primeira coisa que disse ao psicólogo foi: Já sei do que vou morrer.”

Mariana procurou oncologistas e ginecologistas que, em 1997, só podiam aconselhar que ela não fumasse, não bebesse, não tivesse sobrepeso e levasse uma vida saudável. Os exames preventivos, que geralmente começam aos 40 anos, foram antecipados. “Fiz minha primeira mamografia aos 20 anos”, lembra. Os médicos também aconselharam Mariana a ter filhos logo. “Ter filhos virou uma angústia. Meus pais queriam que eu engravidasse logo”. A atriz só realizou o sonho de ser mãe 13 anos depois.

Quando os filhos nasceram (os gêmeos Mia e Gael têm 4 anos) já existia a opção de retirar ovários, trompas e as mamas de forma preventiva, para diminuir drasticamente as chances de ter a doença. Mariana amamentou os filhos por um ano e dois meses e só depois voltou a pensar no assunto. Com 32 anos retirou por videolaparoscopia ovários, trompas e útero. “Foi super simples”, lembra. “Uma semana depois já estava dançando em um ensaio para um musical”.

Segundo a médica geneticista Maria Isabel Achatz, Diretora do Departamento de Oncologia do Hospital A.C. Camargo, o câncer de ovário é silencioso e, por isso, a retirada de ovários e trompas é efetiva em casos como o de Mariana. “Esse câncer não é visualizado na ultrassonografia, é assintomático e por isso é difícil um diagnóstico precoce”, explica. As chances de ter câncer depois de uma cirurgia de ooforectomia caem 80%, segundo o Journal of Clinical Oncology.

Um ano depois da retirada das trompas, ovários e útero, a atriz fez a chamada mastectomia redutora de risco, que é a retirada da glândula mamária com a preservação da pele. As chances de ter um câncer de mama caíram para 5% por cento. “O risco ainda existe porque não há como retirar todo o tecido”, explica Dra. Maria Isabel. As chances de uma mulher que não tem essa herança genética de desenvolver um câncer de mama são de 10 a 14%.

Por causa da cirurgia para a retirada do aparelho reprodutor, Mariana entrou na menopausa e desde então faz reposição hormonal. “Demorei um pouco para me adaptar às doses de hormônio, mas hoje levo uma vida perfeitamente normal”, conta.

A ANS, Agência Nacional de Saúde Suplementar, incluiu em 2013 o exame de detecção de mutação genética dos genes BRCA-1 e BRCA-2 na lista de procedimentos com cobertura obrigatória pelos planos de saúde, desde que prescrito por um geneticista. A oncogeneticista Maria Isabel Achatz acha que ter acesso a esse tipo de informação é um avanço. “Quem teve a mutação diagnosticada na família (e que viu a mãe morrer de câncer) pode fazer o exame e tirar um peso das costas ao ver que não herdou o gene com a mutação”, afirma. “Quem souber que tem a mutação vai ter opções para lidar com a questão. O exame não cria um um problema. Oferece possibilidades de reduzir o risco que, no caso, já existe”, completa.

Além das terapias com hormônios, Mariana fez a reconstrução das mamas com silicone e se sente ótima, inclusive está em cartaz na montagem brasileira do musical “Mudança de Hábito”. Depois de assistir à avó perder a batalha para o câncer, ela celebra a vida. “Estou completamente bem resolvida e espantei um fantasma que me perseguia”, conta.  “Estou muito aliviada.”

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