Já desejei que o ano novo chegasse com mais dinheiro. Também já quis que ele trouxesse um trabalho mais desafiador. Já pedi, claro, por saúde para mim e para a minha família. Mas desde que me tornei mãe só quero uma coisa: que meu filho seja feliz. Claro que no ano novo preciso de dinheiro, trabalho, realização profissional, boa saúde. Mas me vejo desejando cada vez menos as coisas que eu costumava ambicionar. Não quero carro novo. Nem mais limite no cartão de crédito. Roupas novas? Nope. Apartamento na cobertura? Não, obrigada. Chegar ao topo da carreira? (E passar menos tempo com a minha família?) Nem pensar.

Mas nem sempre raciocinei assim. Meu filho estava com três anos quando me deu a primeira dica de que o trabalho, mesmo bem remunerado e legal, não era tudo. Ele queria saber porque eu nunca estava em casa e, quando estava, não saía de frente do computador. “Mamãe trabalha tanto para poder te comprar Yakult”, respondi, espertíssima ao fazer a relação mais simplista entre trabalho e dinheiro que encontrei. “Então não quero mais tomar Yakult, mamãe”, decretou. Cataploft. Caí do salto, mas continuei abraçando todas as oportunidades que surgiam porque o dinheiro nunca foi para o leite fermentado e sim para o financiamento do apartamento, a escola, o judô, a natação e todas as outras coisas – e eram várias – que eu achava que precisava ter para ser feliz.

Mas chegou a crise, aquela que a imprensa não nos deixa esquecer nem por um minuto. Tivemos de fazer, como a maioria das famílias brasileiras, cortes, trocas e concessões. Não trabalhei todos os meses do ano, a renda caiu, o cinto apertou. Não fizemos grandes viagens, não nos demos ao luxo de nada supérfluo. Mas não deixamos de ser felizes, pelo contrário. Ganhei do meu filho um desenho lindo no dia do meu aniversário. Um beijo do marido no dia em que completamos mais um ano de casados. Papai Noel veio, como todos os anos, mas trouxe presentes apenas para as crianças. Descobri que, ao contrário do que imaginava, eu não precisava de mais nada. Nada que o dinheiro pudesse comprar.

E se a crise surrupiou nossa renda ela nos devolveu, em troca, o tempo, essa commodity contemporânea. Assim como a soja ou o petróleo, cujo preço é determinado pela oferta e procura internacional, o tempo está supervalorizado porque é cada vez mais escasso no dia a dia de uma mãe. Samuca, feliz da vida, tem se sentido um investidor da bolsa em época de realização dos lucros. Sábado passamos o dia no mar. Depois fomos ao parquinho. Ontem fizemos brigadeiro e assistimos aos seus desenhos favoritos. Hoje fizemos lasanha e já estamos de saída para o fliperama. O tempo está escasso, mas só para escrever esse post, o último do ano. Que em 2016 a gente perceba, finalmente, que as melhores coisas da vida não são coisas.