Dia desses eu fui almoçar com uma amiga, grávida depois de muitos anos de casamento. Ela me contava que desde que descobriu a gravidez, não conseguia sentir nada: nem enjoos e muito menos aquele amor louco pela barriga que todos cobravam que sentisse. “É difícil se conectar com algo que nem parece que está acontecendo”, justificava-se.

Mas se engana quem pensa que esse tal amor nasce, então, um pouco depois do parto, assim que colocamos nosso filho no colo. Pode nascer, claro, mas também pode demorar a surgir, já que a relação afetiva entre pais e filhos é algo construído no dia a dia, defende a psicoterapeuta Lucia Rosenberg, que também é palestrante do TEDx SP e professora da Casa do Saber. A especialista em relações familiares afirma que o amor cresce junto com os medos, os risos, as brigas e as conquistas cultivadas todos os dias. “Intimidade não se inaugura. É construída. O amor em família não nasce pronto”, destaca a psicoterapeuta, que também é autora do livro Cordão Mágico – Histórias de mãe e filhos (Ofício das Palavras). Lucia conversou com o blog antes de sua palestra desta terça-feira, na Roda de Encontros Matutaí, na Livraria da Vila, em São Paulo.

Blog: Muitos pais nutrem a expectativa de que o amor e essa conexão com os filhos nasçam imediatamente, assim que descobrirem que vão ser pais e mães. Há risco de se decepcionarem?

Lucia: Com certeza. As pessoas acreditam nessa coisa instintiva e nos “laços de sangue” e acham que eles já garantem o amor, o respeito e o interesse, mas nem sempre é assim. São vínculos afetivos que nascem entre pessoas diferentes que vivem no mesmo espaço, crescem juntas dia a dia e que dividem coisas tão importantes como a mãe, o espaço, a mesa de refeição.

Blog: O que os pais têm que ter em mente, então?

Lucia: Não é “em mente”, mas sim no coração. É no coração que a empatia mora e é com ela que você aprende a se colocar no lugar do outro. As lições que nossos filhos nos ensinam são muitas: de generosidade, de tolerância, acolhimento, curiosidade. Filhos nos tocam em lugares muito importantes. Nos primeiros três anos de vida eles aprendem coisas essenciais, como andar, falar, deixar as fraldas de lado, ou seja, têm aquisições enormes, mas nós, pais, também estamos aprendendo com eles se tivermos esse olhar, se não acharmos que a vida é esse automatismo de parir, ensinar como se come, pagar escola e exigir nota. São vínculos muito preciosos que estamos construindo com eles.

Blog: O jeito de relacionar com nossos filhos mudou?

Lucia: Antigamente se dizia que criança tinha que baixar os olhos para falar com adulto. Isso foi há 50 anos e não faz tanto tempo assim se pensarmos bem. Os vínculos familiares vêm mudando muito e a gente agora está tendo uma oportunidade de se entender de verdade com os nossos filhos. As crianças estão muito interessantes e os jovens têm tido contato com coisas que os pais nunca tiveram. Agora é a oportunidade de a gente se abrir para isso e cultivar a intimidade com eles, intimidade semelhante a que temos com os nossos amigos. É tempo de se interessar pelos assuntos dos nossos filhos, perguntar como está a vida deles com uma curiosidade genuína. A empatia faz com que você ouça as coisas com a importância que elas têm na vida do outro. E se isso for sendo vivido no dia a dia, eu duvido que na “adultecência” dos filhos a família não esteja, como consequência disso, muito próxima, unida e amiga.

Blog: Muitas pessoas se recusam a se conectar dessa forma com os filhos, não aceitam ser amigas deles. Ainda há defensores de posturas muito comuns antigamente, como a de bater nas crianças. Muitos recorrem à máxima do “apanhei e não morri” para defender esse tipo de educação. O que a senhora acha disso?

Lucia: Toda vez que escuto no consultório alguém dizer que apanhou na infância é com mágoa. “Apanhei e dói até hoje” ou “apanhei e não merecia”. Bater é muito violento. Acho que a palmada, quando vem, diz mais sobre o descontrole de quem está batendo do que sobre o mau comportamento de quem apanha. Bater mostra um falta de recursos do adulto para lidar com a criança que está lá, desafiando. A criança não merece o tapa. Esse movimento mostra que é o adulto que não sabe mais o que fazer.

Blog: E quando a pessoa não sabe mais o que fazer o que ela tem que fazer?

Lucia: Senta e chora com a criança. Isso é melhor do que bater. As crianças levam a gente a alguns limites, claro. Para dar um exemplo, vamos apelar à caricatura: a famosa manha para sair do parquinho. Em vez da mãe ficar ou com vergonha da manha, ou tentando impedir a manha o que, no geral, é uma luta de foice, o melhor é agachar, para ficar na altura da criança, e dizer para ela que entende como ela se ela sente. “Olha, filho, eu sei que às vezes não dá vontade de ir embora mesmo, estou entendendo que você está bravo, mas não dá, nós vamos ter que ir embora”. A gente dá um tempo para passar toda a chateação, diz para a criança se acalmar, que você está lá esperando. Em vez de ficar bravo a gente tem que compreender porque o filho está agindo daquela forma. Se você se aliar à criança naquele momento, termina com metade da briga. Claro que tem criança que vai além, que não se emociona com isso mas, geralmente, esse exercício de se colocar no lugar do filho resolve. Não há garantias, não existe fórmula, claro, cada criança é uma, cada mãe é uma.

Blog: E quando você não se solidariza com a criança, como ela se sente?

Lucia: Se você não quer entender porque ele está brava, se você está com o saco cheio e quer sair com ela de lá a qualquer custo, a criança se sente só, tem a sensação de que não está sendo vista ou considerada. Antes de tomar um tapa, ela já está sozinha, pensando em como não a estão entendendo. Uma outra questão é nunca esquecer a diferença de tamanho entre pais e filhos. Se a mãe quiser arrancar aquela criança do parquinho, ela vai arrancar. E isso é uma super covardia.

Blog: Qual a mensagem que se passa para criança quando o pai e a mãe usam da força?

Lucia: Que a força bruta é um recurso. É como dar um berro dizendo “não grita!”. Você faz o contrário do que está pregando.

Blog: Criança aprende pelo exemplo?

Lucia: Muito. Muito mais do que pelo “blá-blá-blá”. Se você tiver uma conversa olho no olho, a criança se sintoniza com você. Mas não adianta falar e fazer outra coisa. Não adianta ensinar a não bater no irmão menor dando um tapa na mão dela. Você também é maior que ela. E também estará batendo.

Blog: Quais são as formas e recursos de estreitar os vínculos afetivos com os filhos?

Lucia: Primeiro exercitando a curiosidade. Você tem que querer conhecer aquela “pessoinha” que colocou no mundo. Tem uma semente ali que vai brotar. Tenha prazer em conhecer seu filho. Ele vai se revelar à medida que você deixar que ele seja quem é, livremente. Em segundo lugar, aceitando o que descobrir.  Às vezes você sonha que seu filho vai ser um atleta e ele se mostra um intelectual, ou deseja que ele se transforme em um cientista e ele se revela alguém mais intuitivo. Essa liberdade é uma lição de vida maravilhosa, porque nada é ruim, é apenas diferente daquilo que você idealizou. Viver o dia a dia de conhecer uma criança é um grande barato, principalmente se todos estiverem livres para revelar o que realmente são.

Blog: Assim a criança sente que será aceita independentemente do que apresentar aos pais?

Lucia: Sim. Porque é muito cansativo para os filhos tentar mostrar que são o que os pais esperam que eles sejam. É melhor que ele saiba que não há expectativas prévias em relação a ele, assim se sente livre para se revelar. Você tem que confiar naquilo que está oferecendo e propiciando a ele e é gostoso assistir a essa alquimia da vida. Desde pequeno você vê aquele leite que oferece ao seu filho se transformando em bochechas e coxas. É mágico. E é uma metáfora do que acontece com eles no resto da vida. Mas os filhos também têm de conhecer os pais para que se complete esse processo de intimidade.

Blog: E como a gente deixa que nos conheçam?

Lucia: Revele-se. Conte histórias. Deixa eles saberem que criança e jovem você foi, que medos sentiu ou ainda sente. Os desafios que venceu e quando se deu mal. Que inimigos teve. Algum segredo ou outro. Para que eles saibam que pessoa mora por trás desse papel de pai e mãe. O papel de pai e mãe é assimétrico – os pais deverão ser “maiores” que os filhos durante muito tempo. Chega um tempo que existe uma simetria que é uma delícia, quando eles são adultos e a gente pode curtir várias coisas juntos.

Blog: Por volta de que idade acontece essa simetria?

Lucia: Não há uma idade certa, mas acontece quando eles atingem um certo estágio de maturidade. A adolescência tem se espichado ultimamente e esse processo não se completa de uma hora para outra. Mas, olha: ser pai de adulto também é muito difícil, porque chega a hora que você tem de parar de mandar e de querer ser obedecido. Se conseguir ser levado em conta já é muito bom.

Blog: As crianças costumam achar os pais incríveis. Quando a gente se mostra frágil perante eles isso é uma coisa boa?

Lucia: A gente sempre vai ser espetacular aos olhos deles. Mas não podemos dizer aos filhos que espetacular é apenas quem consegue realizar sempre. Porque tem coisa que a gente não consegue e se você estiver proibido de não conseguir, está impedido de tentar. E tentar é uma coisa muito legal. Então, às vezes, você tem que mostrar para o filho que você não conseguiu, mas segue tentando. A gente erra e é muito importante ter espaço para mostrar a eles os nossos erros.

Blog: Qual a importância da brincadeira nessa busca pelo vínculo com os nossos filhos?

Lucia: Eu falo muito sobre essa assimetria, sobre o pai e a mãe serem “maiores” que o filho durante muito tempo mas, no momento da brincadeira, essa assimetria se perde e todos ficamos mais parecidos, pais e filhos. Às vezes, a mãe é desajeitada com aquele “joystick” do videogame, às vezes é o pai que não consegue pintar dentro da margem, e os filhos nos ensinam – porque eles sabem e a gente não. E é legal porque, nesse momento, ficamos todos no mesmo lugar.

Blog: E o que eles aprendem com a gente nesse momento e o que a gente aprende com eles?

Lucia: A brincadeira ensina uma coisa que eu acho de extrema importância, que é vencer sem arrogância e perder sem humilhação. E se a gente estiver brincando com eles, podemos ensinar isso. Mostramos que existe a comemoração pela vitória, mas ela não passa pela humilhação do outro. A gente vai mostrar que vencer ou perder tanto faz, na verdade. Essa é uma lição ética super legal. Você cumprimenta o vencedor, mas você não odeia ele. Assim como vencedor não humilha o perdedor, mas sim o respeita. A ética se ensina e a brincadeira é um bom espaço para isso acontecer.

Blog: Ética é um assunto super pertinente sempre, mas ganha uma importância ainda maior neste momento do nosso país. Quando os pais podem ensinar ética aos filhos?

Lucia: Em todos os momentos. A ética nasce da escuta e em como você age com eles no dia a dia.

Blog: Educar dá trabalho, não?

Lucia: Nossa, como dá. Mas é a grande obra, ter filhos é um grande projeto de vida. Não adianta achar que vai apenas ter um neném. Você vai ter uma cria para o resto da vida, isso sim.  É “responsamuitabilidade”, como diz uma comadre minha.Tem muita gente que diz: “olha, eu não quero ter filho”. E eu entendo, entendo mesmo. Mas tem muita gente que dizia que não queria ter filho mas engravidou, pariu, começou a ter essa relação e logo diz “nossa, por que eu demorei tanto?”. Ser mãe e pai é uma grande viagem.

Mês que vem, no dia 07/11, o encontro da ‘Roda” é com José Bueno, arquiteto, urbanista e mestre em Aikido, que falará sobre “A luta diária de educar”. Mais informações sobre a “Roda de encontros Matutaí” aqui.

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