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“Não é porque é mãe que é santa”, ouvi uma vez, não lembro muito bem onde. Achei a frase meio farsesca, depois verdadeira e até libertadora. Não é porque um filho nasce que viramos automaticamente Maria, mãe de Jesus. Até Maria devia ter lá seus defeitos, não sei se a Bíblia lista algum. Claro que a imagem de uma mulher abnegada e que se transforma graças à maternidade tem mais apelo, ‘vende’ mais e melhor. Mas uma mulher mau caráter, golpista e exploradora pode continuar sendo mau caráter, golpista e exploradora mesmo depois de ter um filho. Pode se tornar uma mãe tóxica e abusiva porque já era tóxica e abusiva em suas relações pessoais. Filho pode mudar muito a gente e nossas percepções de mundo ou mudar nada. Cada um é cada um também na maternidade.

Tudo isso para comentar um post que viralizou uns dias atrás no Facebook, sempre nele, o disseminador número zero de tretas online. Uma designer fez uma ilustração bacanuda, em rosa choque, de uma mulher linda, branca, bem vestida e classe média que fazia uma proposta às “minas”, cuja indecência pretendia ser escondida pela “arte” descolada e pelo grito-de-guerra-de-passeata-feminista “juntas somos mais fortes”. O anúncio era de “moradia compartilhada”. Mas não era só isso ou bem isso, vemos linhas depois.  A Patrícia, “mãe do Théo” (atenção para esse aposto, “mãe de fulano” que, na minha opinião, não passa de uma tentativa de dar credibilidade à proposta indecente que vem a seguir) oferece, de graça, um “apto descolado” para uma “estudante ou para quem busca uma oportunidade de viver em São Paulo”.

 

“Apto na zona sul, bem localizado, ótimo comércio na região, transporte público para toda cidade, a 3km do metrô Jabaquara/Conceição”, destaca o texto. Em troca, olha só, a pessoa tem “só que ajudar nos cuidados com um rapazinho bem educado de 7 anos!” O “trampo”, explica, é “ficar com ele no período da manhã”. Depois descobrimos, no melhor estilo propaganda da Polishop que só revela os brindes no final do comercial, que não é só isso, ou bem isso, “tem mais!”.  No caso, não um presente ou um desconto sensacional mas, sim, outras obrigações para a eleita: Ela precisa “saber cozinhar”, tem que “dar almoço” e colocar o guri no transporte escolar, além de “manter a casa organizada”. Opa, é um anúncio de babá/empregada doméstica? Não, não, não há menção a salário e benefícios. A Patrícia, mãe do Théo, diz que com essa sequência de trabalhos domésticos a moradia está paga, a “TROCA FEITA!, destaca em caps lock.

Sim. O verbete cara de pau foi atualizado com sucesso. Escravidão está na moda, desde que você finja que é economia compartilhada, lembrou muito bem a Nina Lemos.

Patrícia foi detonada nas redes, mas não recuou, pelo contrário. Confessou ao Estadão que não tem dinheiro para contratar uma babá ou doméstica como manda a lei. “Eu não tenho condições financeiras de contratar uma babá [em contrato] CLT, com férias, 13º, meu orçamento não comporta isso. Eu preciso de ajuda, então foi uma alternativa que encontrei”, explicou. Em uma sequência de entrevistas manteve suas posições e ainda contou a parte dois de seu plano: como é herdeira de uma casa, quer “ajuda” para reformá-la e transformá-la em uma casa comunitária, para abrigar mães solo que vão “ajudar outras mães”. (Enxergo mais uma vez a maternidade como recurso para dar credibilidade a essa senzala contemporânea, onde se paga o aluguel e a comida com trabalho, sou a única?). Patrícia chegou a sugerir que Luciano Huck poderia ajudá-la na empreitada. Mesmo sendo proprietária de um imóvel, ou seja, não sendo nem de longe uma pessoa vulnerável que precisa de ajuda da Cruz Vermelha, do UNICEF ou da ONU para fugir de uma situação de risco e criar seu filho, acha legítimo que salários e direitos trabalhistas sejam tirados da discussão para seu bem-estar.  Mostra que, além de uma pessoa para cuidar do seu filho, também busca loucamente os holofotes. Tese que comprovo quando abro minha caixa de e-mail. Patrícia quer falar. Mais. E de novo.

“Bom dia, Rita.

Publiquei um post no meu facebook e viralizou mencionando trabalho escravo. Loucuras de facebook. O tema envolve maternidade e suas dificuldades e gostaria de saber se interessa em fazer uma entrevista sobre o tema. Listo abaixo os links que se referem ao meu post e outros sistemas de troca. Obrigada”.

Ela deixa seu telefone. Não ligo. Acho que já disse tudo o que tinha para dizer. Agora é a hora da gente falar, Patrícia.

Juro que acredito que você  passe dificuldades para criar seu filho sozinha. Muitas de nós passam. Mas a solução para seu problema não pode ser a escravidão de uma mulher. Existem mães que ajudam umas as outras quando podem, do jeito que podem, e quando sentem que estão em uma relação de troca. O que você propõe é uma relação entre patrão e empregado porque há subordinação, horários, tarefas e funções que devem ser cumpridas por uma das partes. Esse tipo de relação, segundo a CLT, atenção spoiler, deve ser remunerada “em espécie, ou seja, em dinheiro, e na moeda corrente do Brasil”. Salário, sim, igual aquele que você recebe como designer para pagar suas contas. Porque sim, essa mulher também tem as dela.

Era só isso mesmo. Bom dia. Ah, e sim. Juntas somos mais fortes.

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