Tempos difíceis, eu sei. De repente, todo mundo tem uma opinião imutável. São posts enooooormes no Facebook, correntes pelo WhatsApp, piadas grosseiras no Instagram. Gente que você nem conhece se dá o direito de te mandar mensagens fazendo proselitismo político e impondo suas convicções. Até aí, ok. Bacana que agora falemos um pouquinho de política. Porque, há três anos, se você chegasse em uma mesa de bar e jogasse o assunto, a grande maioria das pessoas ia pensar: “Que papo chato!”, “que pessoa pesada!”.  Então, ótimo. Agora, todo mundo acompanha e se informa da maneira que acha melhor. As pessoas estão finalmente interessadas em política. Maravilha!

Só que tem um probleminha aí. Ninguém sabe brincar. As pessoas não respeitam a opinião dos outros. Apesar de achar interessante esse movimento repentino de paixão pela vida pública, algo anda incomodando. O que acontece é que, todos os dias, as pessoas estão se digladiando, principalmente na internet. Proliferando, no lugar de ideias, uma grande dose de intolerância e agressividade.

Faço uma breve pausa para contar uma história. A primeira vez que bati o carro, foi na rua onde eu morava, pura distração mesmo. Dei uma batidinha no carro da vizinha. Não foi nada, só uma  leve amassada, mas a mulher saiu feito um furacão do carro, gritando comigo, me chamou de burra, desatenta, irresponsável, louca. O repertório de adjetivos ruins que ela tinha guardado ali era impressionante. E eu, recém-motorista, feliz da vida desbravando minha independência a caminho da faculdade, comecei a chorar. E não consegui reagir à loucona da vizinha. Pedi desculpas, disse que havia sido distração, que tinha seguro, que estava tudo certo. Mas nada era suficiente para dar conta da raiva dela. Para mim, aquela cena simplesmente não era real. Como podia, uma vizinha, que compartilhava da mesma rua, que ia à mesma padaria, que tinha um filho que jogava bola com outros meninos, ser aquele poço de violência? Foi ali que experimentei uma de minhas primeiras vivências de agressividade com desconhecidos. Muitas outras vieram: além de batidas de carro e insultos absurdos no trânsito, dificuldades no trabalho, situações em que o mundo diz para você: “Vai, reage. Não engole essa a seco”.

Por isso, assistir a amigos se ofendendo — por partidos políticos, pela guerra em Israel, por modelos econômicos ou religião — é muito doloroso. Isso para não dizer das brigas em estádios, por causa de futebol. Ver, sentada na cadeira do trabalho, as pessoas trocando ofensas — e não ideias — é quase incompreensível. É como se a vizinha — aquela mesma — estivesse dentro de cada um, gritando “burro, você não sabe de nada, louco, despreparado!!!!!”. E o debate interessante que poderia surgir desse momento acaba virando fumaça, se perde entre os horrores que você nem imaginava que poderiam sair da cabeça de alguém tão próximo a você. Calma, gente. Tudo tem conserto. Até a amassada no carro. Não adianta esbravejar.

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