Sempre me impressionaram as pessoas que nunca sentem culpa. Não sou especialista em psicologia, nem em comportamento, mas se há um sentimento que faz sofrer é a culpa. É um sentimento que atrapalha, quase sempre, a vida. Na maioria das vezes, paralisa, porque a culpa só chega quando não existe – ou parece não existir – mais possiblidades do que fazer. Acaba sendo um sentimento corrosivo, ‘chicletento’ e, por vezes, autodestrutivo. É importante dizer que quem sente muita culpa nem sempre é culpado de alguma coisa. Na maioria das vezes, sentimos culpa por algo que, não necessariamente, tem a ver conosco. Por isso, chamo esse sentimento que domina essa classe de pessoas – na qual me incluo – de “culpite crônica”. Poderíamos encher esta página com exemplos do que é isso. Quem sofre de “culpite crônica” fica mal em inúmeras situações: não poder ir ao aniversário de uma amiga, não estar nem um pouco a fim de ir ao casamento da menina que te viu duas vezes na vida e te convidou, não conseguir chegar a tempo de dar banho no filho, se entupir de chocolate, falar demais em situações equivocadas. Enfim, a lista não tem fim. Só no quesito “ser mãe”, “ser filho” e “ser mulher” são infinitas as situações que ativam nossa “culpite crônica”.

Então, vamos por partes. Qual é o problema de sentir isso? A rigor, nenhum. Por um lado, mostra que você tem um coração que pulsa aí dentro, que se preocupa com os outros e que não vive só olhando seu umbigo. Por outro lado, acaba com a vida. Sim, sofredores de “culpite crônica” são capazes de loucuras só para não ter de enfrentar a culpa. Violentam a própria vontade, têm uma dificuldade de dizer ‘não’ desastrosa. E, convenhamos, não há nada de heroico em você ir gripadaça ao aniversário da sua amiga, só porque não quer chateá-la. O mundo é duro, pessoal. Um dia, a gente frustra uma pessoa; outro dia, ela frustra a gente. Agora, o grande desafio para os que têm “culpite” é aguentar o “bico” dos outros. Sim, porque, no fundo, no fundo, queremos poder frustrar sem que o outro fique frustrado. Isso não corresponde à realidade. O importante é bancar sua escolha e dar uma ignorada na culpa que vai ficar martelando sua cabeça depois.

Um passo importante: como combater a “culpite”? Bom, daí, minha gente, é complicado. Existem alguns manuais na internet que ensinam a fazer isso. Entretanto, é uma coisa muito pessoal. Tem gente que procura meditação, que sai pra correr, que faz análise, que chora. Acredito que temos de nos ajudar. Se a gente sabe que alguém sofre de “culpite”, podemos sempre minimizar seu sofrimento. É difícil curar nossa própria “culpite”, mas aliviar a do outro é mais fácil. Às vezes, só um telefonema já ajuda. Um convite seguido de um “se não der para ir, não se preocupe”, um e-mailzinho dizendo que sua amiga não é a pior mãe do mundo porque ela vai viajar, e que, sim, ela merece um descanso, às vezes valem mil terapias. Acredito que as “culpites” precisam ter um pouco mais de corporativismo, sem fazer disso um grande drama. Liberdade,sim; “culpite” não.

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