De todos os tipos de pessoas com que trombamos nessa vida, uma das mais impressionante é gente blasé. As pessoas para as quais tudo tanto faz, sabe? Aquele tipo que, quando você fala de uma viagem, de um restaurante, sempre faz cara de quem não gostou. Não exatamente cara de quem não gostou, mas uma cara de “sou maior do que isso”. Chega a ser até engraçado. Você está em uma rodinha de amigos, conversando. Daí uma pessoa comenta que vai passar uma semana de férias na Bahia. A maioria reage feliz, contente. Mas o tipo blasé, não. É quem vai falar : “Nossa, mas essa não é a época boa de ir para Bahia”. Ou ainda: “Já fui para esse hotel ­– e não é nada demais”. Ou seja, a turma blasé é um grande balde de água fria para qualquer um que se propõe a  aproveitar vida sem vergonha de ser feliz.

A maioria das pessoas que se deixam afetar pela vida sentem. As coisas boas e as ruins, é claro. Como? Ora, se aparece lhe uma oportunidade bacana, você se joga, curte, olha pelo lado bom. No entanto, tem essa outra turma que é a dos que “não se deixam afetar”.  Nada é bom o suficiente, tudo é meio mais ou menos para o padrão deles e, principalmente, eles nunca se deixam ver empolgados. Aliás, isso me faz lembrar uma história interessante. Certa vez fui convidada para experimentar um menu feito por um chefe superpremiado. E me sentei em uma mesa de jornalistas especializados em gastronomia. Aquilo tudo era uma novidade para mim — e mais que uma novidade, tinha noção de que aquele evento não era para o meu bico e que era uma superexperiência que eu estava podendo vivenciar. Lembro-me de que achei a comida maravilhosa, aprendi com o chef várias coisas sobre gastronomia, conversei com o sommelier  sobre os vinhos –  porque quem se afeta pela vida é curioso e gosta de aprender. Mas fiquei muito impressionada com a cara de uma colega que estava do meu lado. Era uma cara blasé. De quem estava acima de tudo aquilo. E mais: ela me olhava – eu que estava interessadíssima- como se eu fosse uma ET.  Ela estava tão acostumada, mas tão acostumada … que nada mais a impressionava. Eu me lembro de ela ter falado assim : “O vinho não está perfeito. O prato não é perfeito. A temperatura está imperfeita”. Saí de lá pensando que eu nunca gostaria de ser uma dessas pessoas que se acostumam, ou que fingem que se acostumam. Porque aproveitar, se entregar sem ficar preocupada com o “em volta”  ou com a “perfeição” de tudo é muito bom. Chegar a um quarto de hotel e ficar feliz porque é ele confortável, a cama é uma delícia, a vista é bonita, está sol em dias frios, ou porque tem um vinho – que pode não ser perfeito mas é bom… o que mais precisamos?

Se você não acha que o mundo  lhe deve algo, você está sempre ganhando. Porque abre a oportunidade de se surpreender — veja bem, surpreender-se não é se contentar — com coisas pequenas. Um jantar gostoso. Almoços às sextas com os amigos da faculdade. Um ingresso conseguido a duras penas para o show do Gil e do Caetano, uma noite em um hotel bacana, flores frescas compradas na feira. Comidinha caseira. Janelas antirruídos.

Quando você sente o mundo não lhe deve nada, tudo que vem é lucro. E esse lucro do qual falamos nada mais são do que pequenos lampejos de felicidade. Acredito que essa, sim, é uma porta aberta à sorte. Quando você começa a dar espaço para essas coisas, o resto parece vir com tudo.

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