São dias e dias olhando o computador, consumindo ­– de forma fragmentada — as notícias, assistindo às viagens maravilhosas dos outros no Instagram e os amigos brigando por política no Facebook. O WhatsApp bomba com piadas e fotos dessa coisa enorme chamada realidade. Então, chegar em casa e descascar tomates, fazer uma sopa diferente ou se arriscar em uma receita mais ousada é algo que pode ser maravilhoso. Pelo menos, assim foi para mim. Começar a cozinhar — não por obrigação, também não querendo ser chef ou expert em nada, simplesmente testar receitas –, pode “salvar” a gente da dureza nada lúdica do dia-a-dia. Claro que eu falo dos que encaram isso como hobby. Sim, na era digital, nada como literalmente “colocar a mão na massa” e chorar cortando uma cebola. É muito diferente de dar um refresh para ver quantos likes teve a sua foto no Instagram, mas é de verdade. Cozinhar pode ser, sim, uma salvação das notícias terríveis, do baixo-astral, da agenda lotada do dia de amanhã, da pressão cotidiana.

Explico: aprendi que cozinhar exige certa dose de concentração senão a coisa desanda, a receita sai toda errada e, o que era para ser delicioso, fica com aquele arzinho de frustração. E é justamente essa concentração que tem o dom de nos tirar da realidade e conectar com “outro mundo”. Quando — depois de brigar no trânsito, ver as fotos dos refugiados na Síria, ouvir um monte de reclamações e ver gente discutindo por bobagem — sua grande ambição é, simplesmente, acertar na quantidade o ponto da massa… ah, isso é um passaporte para se fugir do estresse. Não precisa fazer social com ninguém, não precisa nem conversar. É você e você. E isso, às vezes, é muito bom. E tem também o aspecto da troca com o outro.

Há algumas semanas, por sinal, entrevistei a atriz Carolina Ferraz e, lá no finzinho da conversa, entre as coisas que ela disse sobre o prazer de cozinhar, estava a questão de servir os outros “Eu acho que a cozinha me traz muita alegria. Primeiro porque através da comida você proporciona prazer, é uma maneira de você se entregar pro outro, você dedicar amor e tempo à outra pessoa. Eu acho que é muito engraçado que as pessoas nunca observaram essa paixão que eu tenho por cozinhar como uma bandeira da minha personalidade. No fundo eu sinto prazer em agradar as pessoas das quais eu gosto, prazer de fato em servi-las”, ela disso. Eu pergunto: não é bonito um pensamento desse em tempos de egoísmo e narcisismo? Não sei se todo mundo que curte cozinhar se sente da mesma maneira, mas tendo a acreditar que sim. Que tem algo muito gratificante em proporcionar aos outros – e a si mesmo – momentos saborosos.

Porque, gente, vamos combinar: comida é amor. Dividir uma sobremesa, comer uma sobrinha requentada de algo que ficou muito bom, fazer um mexidão com tudo que tem na geladeira, comprar coisas especiais em um sábado inspirado para experimentar uma receita maluca, ou não desistir – por pura teimosia – daquele doce em que você nunca acerta o ponto porque simplesmente está com vontade ou porque quer agradar a alguém…

Assim sendo, acho que não tem receita mesmo. Tem gente que faz ginástica, outros procuram meditação, florais, Netflix. Entretanto, recomendo muito mergulhar nessa empreitada contra o estresse. Além de divertida, fortalece os vínculos e… alimenta a alma.

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