Dia de ressaca. Braba. Quem aí está com o corpo doendo, um pouco de enjôo, sentindo-se mal à beça depois dos discursos da votação? Não importa se pró ou contra, se gostou ou não do resultado… o espetáculo foi osso duro de roer. Alguém reparou o número baixo de mulheres na Câmara? Eu vi. Independentemente de posição política. É uma triste verdade: o Congresso é só uma minidemonstração do que está aí no nosso dia a dia. Se alguém bate no peito e clama “pela minha família e pelo meu neto Gabriel” antes de votar, isso só reflete uma postura que a sociedade exibe todos os dias.  Cada um só preocupado com a sua família, sua patota, seu umbigo. Daí é esse show de horrores: os discursos de ontem.

A ressaca é disso, creio. Da intolerância, de não poder debater  com uma pessoa pensando silenciosamente “não vou perder meu tempo”. De ouvir coisas preconceituosas de vários lados todos os dias e, mesmo sem se acostumar, se acostumar. Ressaca de gente brigando na PUC, de muro separando amarelo de vermelho, de famílias rompendo enquanto os outros estão lá, gritando no microfone, “em nome do sobrinho João”. A ressaca é também da falta de outro assunto, de todo mundo nervoso, de um julgando o caráter do outro sem olhar para si mesmo. Ressaca dos gritos na janela, do nosso reality show moderno com todos esses personagens. Dos barracos, da falta de respeito. Deus — que foi tão mencionado ontem — deve estar com uma baita ressaca da ignorância que assola os homens por aqui.

A ressaca dos mesmos comentários, dos mesmos comentaristas, dos mesmos textos e subtextos. Tudo “pregando para convertido”. Todo mundo fugindo do debate, se embriagando em curiosidades mórbidas, em manifestações violentas nas redes sociais. Ressaca de gente que, do dia para a noite começou a falar de política, enchendo a boca para dizer que é politizado mas não pensa o que é ter uma postura política na vida. Gente que destrata as pessoas ao seu redor ou não espera na fila da vacina.

Ressaca das mulheres que são assediadas todos os dias no metrô e de brigas de torcidas organizadas de futebol — que carregam tacos e armas e para se matarem. Somos um país violento. E violência causa medo, indignação e desesperança. Então, alguém tem algum Engov sobrando aí?

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