Todo ano é a mesma coisa. Promessas e mentiras sinceras que contamos baixinho, enquanto pulamos as sete ondinhas, pensando no ano que chega. Perder 3 kg, aprender francês, começar a pós-graduação, se alimentar direito, buscar uma vida espiritual, beber menos, mudar de casa, achar um amor verdadeiro… por aí vai. A lista é infinita e pessoal. Entretanto, se compararmos nossas listas, não são tão diferentes assim. Basicamente, queremos saúde, amor, dinheiro e sucesso. Uma fórmula mágica que se desdobra em muitos capilares: ioga, emprego novo, engravidar, cuidar mais do jardim, começar um trabalho voluntário, enfim… Nosso dia 31 é uma grande panorâmica para o futuro e para o ano que passou. Às vezes, sente-se uma melancolia. Outras, um grande alívio. O fato é que recomeçar é sempre bom.

Este olhar é um grande exercício. Sabemos que muitas das nossas promessas não vão sair do papel, ficarão lá com as flores que jogamos para Iemanjá. Outras acontecem por esforço, oportunidade ou sorte mesmo. Mal não faz, não é mesmo? Na minha casa sempre foi assim. No réveillon da minha família reservamos um momento para isso. Acendemos velas na praia e ritualizamos nossa passagem de ano. As pequenas chamas, somadas aos fogos de artifício e ao canto embriagado dos vizinhos de praia, entoando um “adeus, ano veeeelho; feliz ano noooovo”, fazem desse momento algo feliz e emocionante. Calcinha rosa para o amor, sementes de romã em busca de riqueza, banho de sal grosso contra a inveja. Cartinhas para a santa do mar pedindo leveza na vida, paz nas relações tortuosas e, vá lá, um empurrãozinho… em qualquer que seja a pedrinha do sapato.

É na virada do ano, convenhamos, que passamos aquele “peneirão” na vida. Muitas coisas se vão: alguns ressentimentos, uma poltrona velha que você insistia em manter na sala, cartas antigas, cadernos velhos. Outras permanecem. Das amizades, talvez as menos óbvias. Aquela amiga que você conheceu em uma viagem, achando que seria uma companhia pontual e que acabou virando a madrinha do seu filho. Outras passam. É triste perder, eu sei. Somos educados a acumular. Posses, coisas, papéis, relações. No entanto, algumas coisas deixam – ainda bem – de fazer sentido. Quantas vezes não nos pegamos olhando para trás, pensando em pessoas que já foram muito próximas e, de um ano para outro, se tornam estranhas? Da mesma maneira que perdemos, há cumplicidades radiosas que nunca deixam de existir. E isso é muito lindo.

Não dá para saber se as resoluções de ano novo irão se concretizar. Talvez os três quilos fiquem aí, como sempre. Ou o francês seja substituído por aulas de dança de salão ou um curso de culinária. A vida espiritual pode se revelar para alguns,  para outros pode ser uma eterna busca de algo que está bem ali, debaixo do nariz. Pensar nos nossos desejos é que é o grande barato do ano novo. Desejos regados a romã, champagne e muito cor-de-rosa. Por que não?

Aos leitores do Sem Retoques, muito dinheiro no bolso e saúde para dar e vender.