Vai entender. Começou depois de velha. Aos dez anos, minha mãe me arrumou toda bonitinha porque eu ia viajar de avião pela primeira vez. Eu olhava as nuvens e imaginava que estava no céu. Assim como os pássaros e,talvez, os anjos. Sentimento muito diferente do que me capturou anos depois. Se, até pouco tempo atrás viajar de avião, para mim, era indiferente, hoje, é uma dura aflição. E vai tentar explicar esse medo para quem não sente: é quase impossível. Por isso, lá dentro, meus amigos, há uma enorme cumplicidade entre os medrosos de voos. Compartilhamos técnicas específicas que vão desde remedinhos tarja preta até mastigar o gelo na hora da turbulência – essa aprendi semana passada.

“Você tem medo de avião? ” é o que sempre perguntam quando você já está naquela máquina de muitas toneladas, tentando entender – com todas as leis da física (sustentação, peso, tração e tudo mais que você sempre pegou recuperação na escola) – como aquele treco voa.  “Sim, um pouco”, você responde, tímida. Dá uma certa vergonha, é verdade. Mas medo é medo e não tem argumento físico que alivie aquela tortura mental. Você está lá toda dura, suando frio na sua cadeira, quando a pessoa que não tem medo tenta – sem sucesso – te acalmar. Afinal de contas, ela está impávida, calma. Na subida – enquanto você fica de olhos fechados até saber que passaram todas as nuvens difíceis, ela lê tranquila ou já caiu naquele sono profundo. E, se repara que você está nervosa, apresenta os argumentos para tentar aliviar seu medo: “morre-se muito mais no trânsito do que de acidente de avião”; “ avião é o transporte mais seguro do mundo”, “as quedas são sempre de falha humana” e por aí vai. Mas a pergunta é: desde quando isso acalma alguém, gente?  

E quando você fala “só não gosto quando balança muito” é pior. Porque, daí, tem sempre alguém que solta a clássica frase: “nenhum avião cai de turbulência”. É maravilhosa porque  é a típica proposição que perde qualquer força quando o avião começa a balançar. É, porque quem tem medo de viajar de avião, tem medo – no fundo, no fundo – de turbulência. Ou quando o avião está tranquilão, sem nenhuma balançada, você fica suando de medo? Não. O trimilique nas mãos bate mesmo quando o bicho entra naquela nuvem preta,  acende o sinal de “atar os cintos”, a aeromoça fala com aquela voz analasada “queiram permanecer sentados” e o barulho da turbina (ou motor, ou da asa, ou sei lá o quê) aumenta. Daí você pensa “ah, calma, nenhum avião cai de turbulência?” Óbvio que não! Nessa situação é cada um por um e Deus por todos. Só quem já passou por uma turbulência forte sabe disso. As reações dos passageiros medrosos, como nós, são as mais distintas possíveis. Eu, por exemplo, sempre olho – quando dá, é claro –  os comissários. Algo no fundo da minha “fantasia aviãozística” me diz que se eles demonstrarem nervosismo, ferrou. Mas tem gente que reza, tem desconhecido que segura na mão do colega do lado, tem gente que chora, tem gente que mastiga gelo. Mas não conheço uma só pessoa que tenha medo de voar e que fique tranquila em uma turbulência forte porque lembra que “aviões não caem de turbulência”.  

Amigos e amigas medrosos de avião, sabemos que é um medo bobo, mas é importante termos conhecimento que existem muitos de nós por aí. Que não acham maravilhoso sobrevoar as nuvens, nem acreditam ser pássaros ou anjos. Mas que sempre terão, na manga, uma nova técnica para diminuir o medo. Ou para segurar nossas mãos e trazer um copo de gelo para mastigar.

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