Choro, choro e choro. É uma mistura de choro com riso. Nossos atletas são a pura emoção pulsante no pódio ou fora dele. Não tem uma medalha que o Brasil ganhe ou deixe de ganhar que não venha acompanhado da história de superação, de volta por cima, de sofrimento. Ao contrário de nossos adversários — para os quais a vitória é “o resultado de um trabalho” — nossos pódios são sempre dignos de novela. Com todo mundo chorando: o vencedor, o técnico, o jornalista, os amigos, patrocinadores.

Daí eu pergunto a vocês: competição combina com os brasileiros? Ou tudo que ganhamos é na base da “fé”? Digo “fé” não apenas no sentido religioso, mas nessa fé de ‘todos que acreditaram em mim’? Afinal de contas, o que é acreditar? Nada disso existe quando a vitória é a apenas o resultado de um trabalho. O cara foi lá, treinou feito um animal e ganhou a medalha. Peguemos a natação como exemplo. Claro que muitos medalhistas se emocionaram, mas digamos que, em sua maioria, muitos estavam ali profissionalmente, apenas com ar de dever cumprido. Apenas. Nada de muita emoção. Nem para mais e nem para menos. Não teve agachar no chão, rolar na piscina, grandes esperneações. Outro exemplo? a ginasta Simone Biles. O repórter perguntou: “Você não fica nervosa?” E ela disse, sorrindo, sem nenhuma arrogância “Não, faço isso todos os dias”. Pode o estádio gritar seu nome, pode ter a pressão que for. Ela não treme, vai lá e faz o que faz todos os dias com a frieza e naturalidade de todos os dias.

Com a gente não parece ser assim. Um pouco da nossa alegria vem também da nossa tristeza. Quero dizer, nossa melancolia é também nosso motor. Sofremos, mas quando ganhamos é com o fígado. Ninguém vai para casa e dorme o sono dos justos com um ar de missão cumprida. Nossos resultados positivos são sempre um caso de superação – de uma vida ou de fatos difíceis da vida. Acompanhado de muito choro e muita emoção. Mas isso é sempre verdade? Uma vitória pode ser treino. E o treino também pode ser “emocional”. Será que isso combina com a gente? Afinal, nos emocionamos. Choramos, queremos ser amigos do Phelps, do Bolt, da Simone. Tietamos. Será que é possível tietar e querer vencer? Como combinar a vontade de chamar seu adversário para o samba, para cerveja e dar tudo de si para derrotá-lo depois? Como ser competitivo com o seu amigão? Como não ficar ofendido quando um cara como o Phelps ignora o esforço de seus adversários e diz que o nível da natação mundial cai quando ele para, como fez com Chad Le Clos?

Essa é a nossa reflexão. Se fomos criados de forma colaborativa, como se cria o espírito competitivo? O desafio é achar esse equilíbrio. Aprender que competir não significa necessariamente querer ferrar o outro, mas ter a consciência que, em certas situações, não tem espaço para dois. Isso vale para sua entrevista de emprego, para pleitear aquele aumento. Tem horas em que o “churras” vai ficar para depois. Ao som de muito Gonzaguinha: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz/ Mas e a Vida? Ela é maravilha ou é sofrimento?” Não importa, porque é a vida e é bonita.

Facebook: https://www.facebook.com/blogsemretoques

Me acompanhe no Twitter:@maneustein

No Instagram: @maneustein

Leia mais textos do Sem Retoques: http://emais.estadao.com.br/blogs/sem-retoques/