Está todo mundo de purpurina. É maravilhoso e estranho. Você ali no bloco e, de repente, encontra o cara que trabalha na baia do lado — com quem você nunca conversou e que, na verdade, é meio mal-encarado. Ele está vestido de Chapolim, ou de Chaves, ou de  Bam-Bam. Alguma fantasia difícil de reconhecer, porque a ideia é que ninguém se reconheça. Nem você (que colocou só um penacho na cabeça, mais para entrar no clima do que porque goste de Carnaval) nem ele. A ideia é que sejamos todos desconhecidos. Ele sorri, ri, joga a mão para o alto e canta, aos berros, “choooooora, não vou ligar, chegou a hora, vais me pagar, PODE CHORAR, PODE CHORAR”. Você olha, pensa em cumprimentá-lo — afinal, trabalham juntos –, mas, antes mesmo de fazer qualquer movimento, ele já vem com toda a alegria que Baco lhe deu, te dá um abraço, diz que é M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O te ver lá. E vai embora com o trio elétrico.

O bloco de carnaval é mais ou menos isso. Um aperta dali, aperta daqui. Aquele bolo de gente junta, com fantasias meio improvisadas em casa, amigos, casais e até crianças. Suor, cachaça, sujeira, vontade de fazer xixi. Tudo na mesma lambança purpurinada “atravessando o deserto do Saara”. A música, coitada, é quase uma coadjuvante. Às vezes, dá para ouvir, cantar e ensaiar alguns passinhos, se houver espaço. Mas, durante a maior parte do tempo no bloquinho, o que importa é estar junto. Encontrar gente conhecida e desconhecida. Se desfazer da gravata, da formalidade, beber e distribuir sorrisos. É cruzar com a menina com quem você estudou aos 14 (adorei te rever, Mariana Coelho), a gerente do seu banco e aquele cara que parece nunca ter saído do bloco. Afinal, há dez anos você só encontra o sujeito lá.  Ele não trabalha, muito provavelmente não vai ao supermercado nem faz nada que seja chato, porque se trata de um folião profissional. Pula de bloco em bloco, vivendo intensamente essa coisa lisérgica chamada carnaval. Mas, claro, esse não é o seu caso — você é, praticamente, uma turista e observadora da felicidade coletiva alheia — e nem o caso do cara da baia do lado. Isso é o mais bonito do carnaval: as pessoas se soltam. Você sabe. O cara da baia do lado nunca entra no Facebook, jamais se desconcentra, não parece ter momentos de descontração e fala tão baixo que, antes da folia, você mal sabia que ele tinha voz. Mas ali, entre serpentinas e trenzinhos de pessoas, ele se permitiu.

Entretanto, a vida é aquela coisa, né? O bloco acaba e, na segunda-feira, lá está ele, com o tradicional “bico” e a cara mal-encarada de sempre. Metido. Ele agora tem voz, mas não te cumprimenta — como sempre. Não importa. Porque você sabe que, ali dentro, mora um folião. Mora um cara que tem vocação para se divertir. Mora uma pessoa que canta aos berros. Você quase vai até a mesa dele para perguntar: “Era Chaves, Chapolim ou Bam-Bam?”. Mas não. Nem cabe, porque ele já está concentrado no mundo do trabalho. A purpurina e o sambão da Beth Carvalho já são apanas cenas de uma  memória pouco distante.

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