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Grávidas unidas

Marilia Neustein

10/05/2017, 5:52

Desses encontros que acontecem entre mulheres. Amigas que a gente faz sem perceber. Na minha vida aconteceu algumas vezes. Além do clássico da escola, faculdade, etc, tive a sorte de ter amizades nascidas em um curso de teatro. Nos falamos sempre e até atravessamos o mundo para chorar no casamento de uma delas. Amigas que você faz porque tem amigas em comum. Amigas que você descobre em viagens. Em noitadas sem querer. Vínculos que crescem sem esforço, sem pretensões. Apenas são. Foi desse jeito que acabei entrando em um grupo de grávidas.

A necessidade de buscar “um grupo” surgiu da dificuldade de achar uma escuta verdadeira e interessante para uma grávida de primeira viagem. Afinal, além dos palpites sabichões – muitas vezes bem intencionados – o que mais incomoda, para mim, é o mercado pautando o comportamento. A quantidade de listas e “coisas” que supostamente você tem que ter para ser mãe. Os milhões de jabás de todos esses sites que poderiam informar, mas que – no fim das contas – te dizem o que você tem que comprar. Fica difícil encontrar informações que sejam verdadeiras, genuínas. Há maravilhosas exceções como a minha colega Rita Lisauskas (Ser Mãe é Padecer na Internet), que se dedica a informar e a acabar com essa idealização padronizada. Mas, no fim do dia, a maioria dos posts de blogs de maternidade parece ser comprado ou falar de compras. Dá uma aflição… (Que fique claro: essa sensação de ausência foi para mim. Existem gestantes que gostam, querem justamente dicas de compras e se sentem ótimas com isso. Não foi o meu caso). 

Durante os meses de gestação são tantas mudanças que acontecem dentro da mulher que eu, sinceramente, não sei como existe tamanha dedicação para “normatizar” o consumo e o comportamento dessa futura mãe. Nesse contexto – para não falar “nesse túnel escuro de falta de referências de mulheres para me identificar” – encontrei esse grupo – indicação de uma grande amiga que falou em rede de apoio, em dividir todas as aflições e expectativas, em se abrir sem medo.

De repente, uma vez por semana, acontece. Esse tal encontro. Tudinho que lemos em textões no Facebook sobre sororidade e outras gírias da moda que, muitas vezes, ficam vazias de significado, ganham ar de realidade em um espaço cheio sem nenhuma máscara ou hipocrisia.  Mulheres que se escutam. Mari, Ve, Ful, Bel, Ju, Olivia, Marina, Valerie. Que se olham. Que aprendem, semana a semana, sob orientação de uma outra grande mulher – nossa mentora, nossa “Clarissa Pinkola”, Dulce –  a não julgarem umas às outras. A serem mais compreensivas, menos rígidas, a tratarem de suas expectativas. Parto, pós-parto, amamentação, relação com o marido, noites sem sono, medos e mais medos. Cada um desses assuntos – que parecem esquecidos no meio das “10 dicas para decorar o quartinho do bebê”  ou “melhores colágenos para você” das bloggers e influenciadoras – estão presentes acalentando o coração das barrigudas que estão se expondo ali.

Cada semana uma barriga maior, azia, falta de paciência, muito senso de humor, estrias. De repente, parece renascer essa ligação tão forte entre as mulheres que,  não se dá pela maternidade em si, mas que floresce da convivência, da amizade, do vínculo que começa a surgir devagar, sendo construído em uma rede não só de apoio, mas de afeto. Sem papel de parede, sem listas de enxoval ou nada que nos enquadre em uma fórmula. Apenas deixando ser e escutando as outras sendo.  

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