Está tudo nas manchetes do Facebook. Intolerância, polarização, etc etc. Então vamos falar sobre sobre os “embalos virtuais”? Eis o que penso dos movimentos de massa: são perigosos. Recomendo a leitura da matéria da Piauí, em que pessoas comuns tiveram suas vidas destruídas após um tuíte sem pensar. Não acho que isso cabe para qualquer um, é claro. E nem para todas as situações de discussões da internet. Estamos falando de casos extremos. De qualquer maneira, cabe uma reflexão. É isso que queremos construir? Uma sociedade, grupo ou tipo de comportamento que ignora a existência do diferente? Ou pior: que quer destruir o diferente? Ninguém está falando que as pessoas têm que sair na rua distribuindo abraços e sendo generosas com gente da qual não gosta ou com a qual não concorda e sufocar as opiniões e individualidades . Mas é uma questão de sobrevivência. De todos nós. Se cada um só pensar em si e isso for levado às últimas consequências, não restará aqui ninguém para contar a história. A verdade é: no mundo tem gente que pensa diferente.  Não precisa gostar. Não precisar concordar. Mas tem que respeitar.

“Tem que”, porque senão fica insustentável. O linchamento virtual é muito perigoso porque normatiza um tipo de comportamento. Hoje o cara cria uma página de zueira de alguém na internet;  200 likes. Amanhã xinga o político em lugar público; mil likes.  Semana que vem, ele – todo empoderado – filma a si mesmo gritando com o vizinho; 1,5 likes. Daqui dois meses, quando já tiver a audiência que deseja e se achar o rei da cocada, ele bate no cara que fechar ele no trânsito e depois… O inferno é o limite. Esse é o caminho de qualquer fundamentalismo. Religioso, político, social.  Olha aí como está o mundo. Esse é o grande defeito dos radicalismos: tirar a complexidade dos conflitos e das situações. É achar que nada que venha de fora  “do movimento”, “do bairro” “do grupo” pode ajudar a fazê-lo crescer. Só que o mundo não é tão cheio de sábios assim. Nem todo mundo é Gandhi, Mandela, Simone de Beauvoir. Esses, aliás, devem ter escutado muita gente e lido muiiiiitas coisas com as quais não concordaram.

Esse deveria ser o exercício da contemporaneidade: sair do umbigo. Sair da “panela”. Só assim crescemos e ficamos mais inteligentes e fortes.  Eu discordo da maioria das coisas que leio e vejo nas redes sociais. Mas isso não define essas pessoas. Outro dia li um texto de uma menina que admiro falando sobre jornalismo. Discordei de todas as vírgulas. Mas é a opinião dela. Achei ela estúpida por isso? Não. Achei que ela estava errada e eu certa? Também não. APENAS discordamos. Não preciso depositar todas as frustrações que eu tenho com a humanidade e dizer que eu tenho nojo dela, que ela é uma imbecil ou uma ignorante. Ela sentiu daquela maneira. Ela pensou aquilo. Eu sinto de outra maneira e penso diferente. Tivemos vidas e vivências diferentes.  Não mandamos no modo como as pessoas sentem e pensam. A vida segue. Algum dia, quem sabe, sem estar covardemente protegida pela tela de um computador, se eu cruzar com ela e tiver vontade, eu falo que não concordei.  Ou talvez eu escolha falar das coisas dela com as quais concordo. Isso talvez seja mais confortável, leve e carinhoso. Vamos ver.