A coisa que mais se escuta por aí é que as pessoas não têm tempo. Não têm tempo para si, para ler, para cuidar do jardim, para pensar, para o lazer em geral. Escutamos que todo o tempo é focado no trabalho, que perdemos muito tempo no trânsito, que o dia deveria ter 36 horas para fazer tudo que precisaríamos e gostaríamos.

Além disso, para piorar essa sensação, parece que existe uma valorização do discurso do “não tenho tempo”. Como se isso fosse um valor em si. Nunca vou esquecer, uma vez, quando uma colega me viu de unhas feitas – como se aquilo fosse um absurdo – e me perguntou, de forma meio irônica: “nossa, onde você arranja tempo para fazer as unhas? Eu não consigo”. Claro que no subtexto do comentário dela tinha uma mensagem “eu trabalho mais do que você” o que levava a um outro subtexto de “sou melhor profissional porque não tenho tempo para fazer as unhas”. Ainda bem que não colou comigo. E continua não colando. Sabemos que isso não é verdade e que ter tempo é – também – uma escolha. Por isso, sempre que alguém começa com esse discurso, me pergunto que tempo é esse? É realmente algo objetivo ou é um tempo interno, de entrega para as coisas? Acredito que, em muitas situações, trata-se da segunda opção.

Vejam bem, não estou falando que sobra tempo por aí e que as pessoas não sabem como usá-lo. Cada um sabe o que é melhor para si. E, claro, tem ele: o cansaço. Às vezes é como se essa força maior te jogasse no sofá e te dissesse: esquece tudo. E quando o cansaço é tão grande que você não consegue dormir? Vocês já sentiram que não têm tempo para nada e quando o tempo aparece você não sabe o que fazer com ele? E o lazer, então? Quanto tempo você passa no seu celular consumindo um tipo de conteúdo que você acha inútil, mas que te puxa como um imã – te fazendo clicar, compartilhar, falar mal, passar para frente e reclamar? É aí que mora o problema. Muitas vezes, o tempo bate à nossa porta, mas estamos tão cansados e absorvidos em uma relação tóxica com ele que, simplesmente não o enxergamos.  O tempo passa por nós, o cansaço não é curado e a única saída é se entregar ao “não tenho tempo para nada”, com um plus de falar mal de quem sente que tem tempo.

O tempo está aí, embaixo do nosso nariz. E não precisa ser 100% produtivo. Pode ser, sim,  para não fazer nada, dormir, “jiboiar”. Pode ser também para conseguir ler, conseguir se emocionar, conseguir sonhar. O tempo está aí para você construir o acervo que é necessário para o seu pensamento. E para isso, é necessário uma disponibilidade de sentimento – coisa que anda rara ultimamente. Mas nunca é tarde para procurar. Para algumas pessoas o primeiro passo pode ser diminuir o celular, para outras, viajar e para algumas, apenas, olhar com calma e enxergar.  

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