Há duas semanas o NYTimes publicou uma matéria relatando práticas abusivas de trabalho na Amazon. Ao ler o texto, e as repercussões que o seguiram, é de se pensar que realmente está tudo errado. Como o lugar de desejo de  muitas das cabeças pensantes mais modernas do mundo pode fazer isso com seus trabalhadores? Jeff Bezos, presidente da empresa, negou e falou que nada daquilo tem a ver com a “Família Amazon”.

Na semana passada foi a vez de o jornalista Ricardo Boechat desabafar sobre um surto depressivo e de ansiedade depois de “esticar a corda demais” e que é preciso haver “tempo para nos sentirmos bem”. O post foi viralizado, mostrando a empatia de muita gente e também como o assunto é sensível e vivenciado por muitas pessoas. É muito comum, hoje em dia,  pessoas compartilharem textos sobre como mudaram de vida, no melhor estilo “antes eu era assim – infeliz – trabalhava 80 horas por dia e sofria de ansiedade e agora sou assim, larguei tudo e vivo uma vida criativa”. Ou alguém trabalhar em uma grande empresa durante anos, vestir a camisa, se gabar, fazer autopropaganda e depois, quando consegue pedir demissão ou é demitido, ficar falando mal daquela empresa nas redes sociais. Isso também não é exatamente saudável.

O trabalho toma tanto tempo de nossas vidas que é quase impossível não pensar: o que  posso fazer para ser mais leve? Para tornar um ambiente agradável? Como me relacionar com a minha equipe de forma afável? Como aproveitar melhor o meu tempo? São questionamentos que passam pela cabeça da maioria das pessoas, quase cotidianamente. Mesmo quando você é apaixonado pelo que faz ­– ou principalmente quando é apaixonado pelo que faz — pode cair na armadilha de deixar o trabalho ser a única fonte significante da sua vida. Quer dizer: você trabalha muito, reclama que trabalha muito o dia inteiro, mas não desliga quando chega em casa, só fala disso com seus amigos, no seu meio social. É como se fosse um prazer mórbido, ficar ostentando como se trabalha muito, como é dura a vida do trabalho, mas, ao mesmo tempo… como é bom no que faz.

Um dos fatores que pioram essa condição é a competição. Um dos relatos mais impressionantes sobre a Amazon é o fato de que duas equipes são colocadas para trabalhar em um mesmo projeto, sem saber, nenhuma delas, que se trata de uma competição. É uma pressão olímpica. Há quem acredite que a competição é um grande impulso de produtividade. Entretanto, o que vemos em ambientes muito competitivos – salvo exceções –  é um grande número de profissionais em extrema vulnerabilidade, profundamente infelizes e sem saber como sair da situação. Perdemos a noção do que é infelicidade. Nos acostumamos e nos conformamos que é assim. São inúmeros relatos de situações absurdas, que envolvem humilhação, privação e dezenas de distúrbios de saúde.

Entretanto, é bom dizer também que não precisa ser assim. Nunca se viu tanta gente que troca de carreira e encontra novos caminhos. Há também saídas menos radicais. Não é necessário abandonar o trabalho e mudar de vida .O mundo é grande e nem tudo se resume a um título ou marca.  Há muitos lugares para se trabalhar com gente legal que tem objetivos parecidos com os seus. Existem chefes que são generosos e colegas que nem sempre estão querendo tomar o seu lugar.  Cabe a cada um não compactuar com essa lógica doentia e optar por ambientes menos insalubres e mais colaborativos. Que tem, tem. É só procurar.

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