É possível dizer “não” para muitas coisas no final do ano. Haja paciência para a quantidade de eventos, para o trânsito, para o tempo — que insiste em passar rápido quando você quer que seja devagar e devagar quando você quer que seja rápido.

Em nome de uma vida menos estressante, nesse dezembro insano, abri mão dos amigos secretos. Não dos encontros com amigos, esses persistem. Mas deixamos de lado essa história de presentes. Há alguns anos nos encontramos (mais de uma turma, afinal, tem sim espaço e tempo para todo mundo), cozinhamos, bebemos e rimos muito. Sem sorteio,  sem “segredos” e nem “lembrancinhas” – o dinheiro todo vai para o rateio do vinho que é a vontade, em noites regadíssimas de afeto. Vem uma do Rio, a outra de Brasília, todo ano tem uma barriguda com novidades ou uma recém saída de uma relação que estava gasta. A regra, nesses encontros, é ser feliz. Nada de obrigação. Ninguém vai porque “precisa”. Quem está lá, está porque quer. E só isso já é suficiente e leve.

Nem sempre dá para manter a leveza, eu sei. A agenda do google bomba, ninguém chega em nenhum lugar sem ficar meia hora parada no trânsito e, quando percebemos, a manhã foi uma maratona de “ticar as funções”: o check-up no médico, o repelente da zika, o presente da cunhada, as últimas tarefas do trabalho, festa da firma, quitar as dívidas, happy hours mils.

Mas essa euforia tem sua graça. Podemos sempre olhar o copo meio cheio ou o copo meio vazio.  O ano foi duro, a política não ajudou, o mundo também não colaborou, a violência das redes atingiu todo mundo – em um momento ou em outro – cada um com seu calcanhar de aquiles. Mas estamos aí.

Também podemos dizer “sim” para muitas coisas do fim de ano. A Zona Oeste tem nos presenteado com lindos arco-íris em fins de tarde de sábado, Gilberto Gil continua fazendo espalhando sua poesia, Game Of Thrones está indicado no Globo de Ouro, os sobrinhos crescem, a cerveja está cara –  mas também cada vez mais gelada.  E tem aquela frase, né, do Guimarães Rosa que diz que “felicidade a gente acha nas horinhas de descuido”.

Sei que é muito difícil se distrair no meio dessa bagunça de fim de ano. Mas, talvez, nada mais seja tão necessário quanto essa “distração” para gente trombar com pequenas surpresas ou se abrir para reencontros mais gostosos e menos protocolares.  O verão chegou, enfim.

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