De tempos em tempos a gente se depara com eles: os deslumbrados. Confesso que, no dia a dia, diversos tipos de pessoas me deixam intrigadas: as blasés, os mal-humorados, os pessimistas crônicos. Mas nenhum deles realmente leva à incompreensão total como é o caso dos deslumbrados.

Por que escrever sobre eles? Não sei com vocês, mas parece que eles têm crescido. Estão por toda a parte: no trabalho, na Polícia Federal, nas redes sociais, nos blogs, no governo, no anti-governo, nos amigos dos amigos. E isso é muito incoerente com o nosso momento, não? Bem agora –  em época de crise – que deveríamos repensar nossos erros – nossas relações, os deslumbrados estão a todo vapor. Gritam aos nove ventos suas conquistas, exibem tudo: o cabelo novo, o carro novo, o abdômen, a marca da empresa, a marca do orgânico plus plus da fazenda mais orgânica do universo, o jabá, o brinde, o ingresso do show, o show inteiro, o after do show, a manifestação, a repercussão da coisa toda. Como se a pessoa virasse um merchandising ambulante de suas próprias experiências e consumo.

Olha, sei que vivemos em tempos de exibição e ninguém aqui está defendendo um boicote ao exibicionismo ou a uma autoestima bem construída. Cada um faz o que quer e cada um segue/ acompanha aquilo que lhe interessa. O problema é quando o espaço para reflexão fica esmagado pelo deslumbramento do outro. Quando seu amigo perde a noção e acha que é dono de um jeito de viajar, de um lifestyle, de uma maneira certa de trabalhar, de uma forma de se comunicar. Aí que mora o problema. Ninguém é dono de um sentimento. Ninguém é o máximo do máximo que não possa ser questionado nunca. Todos nós temos buracos, incoerências, contradições. Todos. Por mais que uma pessoa esteja completamente plena de suas convicções, isso não é absoluto. A vida é dinâmica, mutável. E ninguém é o que faz, onde trabalha, onde come e onde viaja o tempo todo. Temos segredos, medos e paixões que vão muito além de marcas e customizações de estilos de vida.

E, sim, em tempos de exibicionismo, podemos olhar, discordar, criticar. Também podemos admirar, querer fazer parte, colaborar. Esse processo faz parte, oras. No fim, o que nos faz crescer são nossos vínculos afetivos e toda complexidade que eles abarcam. E não os camarotes. Não a imagem. Mas o sentimento.  

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