Selva de pedra, cidade dura, gente apressada, garoa, mosquitos, falta de árvores. São Paulo, eu já te disse: às vezes você maltrata quem mais te ama. Maltrata 463 vezes. Ou anos. Mas não adianta.  Amor bandido é assim. A gente não larga porque acredita.

Eu acredito em São Paulo. Sou viciada nessa cidade com todos esses defeitos. Com a concretude, o jeito durão e também com quantidade de possibilidades que se apresentam todos os dias. Talvez seja isso que te salva, SP: as possibilidades. E seus paradoxos – que não são menos fascinantes. Tem tradição: Bixiga, pizza de verdade, pastel de feira, padocas com pingado, jogo de futebol. É também moderna: concertos gratuitos na Sala SP no domingo de manhã, hortas comunitárias em lugares pouco prováveis, restaurante de lamen para os dias frios.

Sim, eu sei. Tem a violência, a desigualdade, o trânsito, a falta de civilidade, as filas intermináveis em T-O-D-O-S os lugares: supermercados, bares, poupatempo, Detran. Somos muitos, afinal. Mais precisamente 12 milhões de paulistanos que amam e odeiam essa cidade colorida – que mistura música, dor, falta de estrutura, cisternas, ONG para adotar cachorros, vizinhos barulhentos, enchentes, livrarias. Tudo regado com cerveja quente, caldo de cana e drinks com preços de cair o queixo e lugares que abrem e fecham toda a semana.

Quando escuto uma crítica maldosa a São Paulo fico ofendida. É como mãe, sabe? Só eu posso falar mal. No fundo, no fundo, acho que, muitas vezes, trata-se de uma falta de compreensão. Afinal, quem se abre para São Paulo encontra uma cidade feia – é verdade – mas, vital. Pode faltar charme, podem faltar ruas arborizadas, ou qualquer coisa que seria o lugar comum de “qualidade de vida”. O fato é que São Paulo não é nenhum lugar comum. É uma reinvenção contínua, uma eterna construção de personalidade formada por seus imigrantes,seus passageiros, sua história e  suas contradições.

Por essas e outras, continuo te amando, São Paulo. E dá licença que agora, na semana do seu aniversário,  vou comer um hambúrger delícia em um lugar que acabou de abrir aqui perto e matar mais alguns pernilogos. Tudo isso antes do toró que está no céu cair…

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