“Preciso me desapegar do celular”. “Preciso me desapegar do celular”. “Preciso me desapegar do celular”. Quem disse que esse “mantra” adianta?

Não sou hippie, adoro energia elétrica, tenho pavor de ficar isolada no mato, curto um Netflix e dar uma espiada nas redes sociais. No entanto, acho que estamos perdendo  a capacidade de refletir seriamente sobre isso. No começo de toda essa bagunça virtual, existia um certo espírito crítico. Com relação ao videogame, ao excesso de computador, celular. O problema é que hoje vivemos com um computador portátil na bolsa. É maravilhoso. E não só para o trabalho. Com ele posso falar com minha irmã, ver meus sobrinhos que moram longe sem pagar nada. Com ele eu consigo marcar um Airbnb do outro lado do mundo em um clique. Com ele eu consigo, em poucos segundos, traduzir uma expressão para o inglês. Encontrar informações sobre a segunda guerra. Assistir teoria de Game Of Thrones. Enfim. É um mundo maravilhoso. Só que a coisa não para por aí.  Tem o outro lado.

Não é de hoje que estudos mostram que o uso do celular em excesso pode provocar ansiedade e depressão. A gente até lê essas matérias, mas acha que isso é mito. Até que a conta chega até nós. Recentemente tive um formigamento na mão e, depois de investigar um pouco, veio o diagnóstico: movimentos repetitivos durante muito tempo com a mão no celular. Segundo problema: uma insônia incomum. É um clássico. Vira para um lado, vira para o outro, são quatro da manhã e resolvo pegar o celular – para ver que horas são. Mas o sono não vem, daí resolvo olhar um pouco as redes. E aí acendem todas as luzes da cabeça. O sono vai embora quando começo, ao raiar do sol a consumir aquele monte de besteirol: videos fofinhos de bichos, vídeos violentos, análises da eleição de Trump e tudo repetido por conta do tal do algoritmo.  Quando percebo já é hora de levantar.

A conta chegou para mim e para a maioria das pessoas. Outro dia estava na sala de espera de um médico. Todos os presentes esperavam com seus celulares em mãos. Só um que não e ele estava claramente incomodado. Até que perguntou, meio desesperado: “alguém tem um carregador para emprestar? Não dá para ficar aqui sem celular”, ele disse.    

Não acho que a situação tenha uma saída óbvia e nem certo e errado. Mas é claro que está cada vez mais difícil viver experiências de silêncio, de tempo, de espaço. Ninguém aguenta mais esperar nada sem o computador portátil. Parece que é preciso estar constantemente conectado, curtindo, comentando, compartilhando e, assim, acabamos esquecendo que toda essa inteligência artificial também contribui para uma alienação sem tamanho.

É, talvez um retiro no mato faça um bem danado. Um salve para os que sabem ser felizes no silêncio e na espera.

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