Não é bem carnaval. Porque ninguém vê o desfile. Na verdade, as pessoas passam, dão uma olhadinha, um grito tímido quando entra a Mangueira e… pronto. Elas seguem para o camarote e vão curtir a balada. A boca-livre, o show da banda da moda — normalmente, algo que não tem nada a ver com samba nem com carnaval. Posam para os fotógrafos, ostentam o megamake e dizem que não querem dar entrevistas, porque estão ali “para aproveitar a noite”. Em um resumão bem grosseiro, esses são os camarotes da Sapucaí.

Não entendo as áreas VIPs do carnaval. Nada contra as marcas — que estão certíssimas em explorar essa plataforma. Mas é quase incompreensível a pessoa que vai ao camarote sem gostar de carnaval ou sem ter curiosidade pelas escolas ou não ter interesse pelos sambas-enredo. Se ela não vai ver o desfile (porque pouquíssimos assistem), o que, então, vai fazer na avenida? Pode dizer que vai porque gosta de aparecer, mas, na verdade, ninguém ali está muito disponível para a “mídia”. É gente que anda com um séquito de assessores, amigos e assistentes, fazendo cena para garantir a “proteção” contra os repórteres e fotógrafos. Alguns até entram em um cercadinho, espécie de camarote dentro do camarote. Existem até três camadas disso. Um cordão separando a “celebridade”, dentro do cercadinho que fica dentro do camarote (só falta a bebica que pisca).  Pode ser por razões comerciais, é verdade. Um post no Instagram de uma blogueira, por exemplo, que é convidada para os camarotes  vale,  hoje, cerca de R$ 25 mil. Mas o  que sentem as comunidades, o Paulinho da Viola, a velha guarda da Portela, sei lá, até a Marisa Monte quando veem aquele povo de abadá, chegando em vans privativas, dando carteirada em todos os lugares? Ano passado, por exemplo, um conhecido jogador de futebol, com sua namorada a tiracolo, ficou sentado esperando seu transporte VIP enquanto as pessoas saíam da avenida e, espremidos em uma grade, imploravam por uma foto. E ele, impávido, fingindo que não ouvia, olhou para todo mundo com cara de “cansei dessa balada”. Imagina uma área VIP, apinhada de convidados- dentro de um estádio, durante um jogo entre Brasil e Argentina – com direito a show de banda, em que as pessoas nem olhassem para o campo? É mais ou menos assim que acontece no carnaval.

Ora, o carnaval, todo mundo diz, é uma festa popular. De rua. Qual o sentido de se criar espaços VIPs? Não acontece só na Sapucaí, sabemos. Em grandes blocos de carnaval de rua já se faz essa separação. Nosso País inteiro fica dividido entre a pipoca e o cordão, mas o que realmente intriga é a pessoa que não gosta de carnaval participar disso. Ninguém tem obrigação nenhuma de gostar de samba, de carnaval, de desfile, de axé. O carnaval taí, gente. São cinco dias de folga. Vai viajar, vai pro mato, fica em casa, vai para algum lugar que faz frio. Não precisa posar em um camarote só para dizer que foi. Que foi e nem viu a escola passar…

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