A cantora Beyoncé lançou, no finzinho do ano passado, um disco todo diferentão. De surpresa, colocou na internet 14 músicas e 17 clipes. E convidou seus fãs do mundo inteiro a pensar em temas como imperfeição, honestidade e liberdade.

Poderíamos chamar a Beyoncé de uma feminista contemporânea? Eu arriscaria dizer que sim. Não só porque em todos os seus discos há letras com conteúdo “girl power” – como Run The world (girls) e Charlie’s Angels – mas também porque ela não despreza os homens. Ao contrário de algumas de suas colegas que se apresentam como dominadoras e esbanjam vulgaridade, Beyoncé escolhe outro caminho: o da complexidade feminina. Sim, ela gosta da sensualidade, usa roupas curtas, dança, pinta o cabelo, mas como conta na apresentação de seu novo disco, cansou de todos os anos de “hard work” para ser aceita. Como toda mulher, deseja abraçar suas imperfeições. Quer ter a liberdade de não dar conta de tudo sempre, quer dividir sua dificuldade em perder alguns quilinhos depois da gravidez. Deseja mostrar como gravou amamentando e viajou em uma turnê carregando sua filha Blue Ivy. Por isso, quem achou que o disco e seus clipes são só sobre ela mostrar suas coxas, não entendeu nada.

Beyoncé (Foto: reprodução)

Na faixa Flawless, por exemplo, ela não só faz menção, como coloca um pedacinho de uma palestra da escritora nigeriana Chimamanda Adiche sobre feminismo. O trecho de Chimamanda fala, entre outras coisas, sobre a dificuldade de ser mulher: “Ensinamos as meninas a se encolherem para parecerem ainda menores. Dizemos: você pode ter ambição, mas não muita. Querer ser bem sucedida, mas não muito. Do contrário, pode ameaçar os homens. Porque eu sou uma mulher, esperam que eu sempre almeje o casamento. Esperam que eu tome as minhas decisões, sempre tendo em mente que é a coisa mais importante. Claro que o casamento pode ser uma fonte de alegria e apoio mútuo, mas porque não ensinamos, então, os homens a desejarem o mesmo? Criamos as meninas para serem competitivas – não por empregos ou elogios – mas pela atenção dos homens”.

Ora, isso é convite para uma bela discussão. Bem feminista, por sinal. Estamos nós mulheres enjauladas nessa perspectiva? No Brasil, EUA e Nigéria? E pensar que foi Beyoncé quem buscou essa escritora para popularizar a questão é, no mínimo, um favor que ela faz por nós.

Não vou aqui fazer nenhuma crítica musical. Não sou especialista em música pop, nem em showbizz americano, mas notei algo interessante: ela agrada um público que normalmente não se encanta por outras cantoras do mesmo gênero como Madonna, Lady Gaga e Rihanna. Ao invocar Chimamanda, Beyoncé difere de suas concorrentes. Não vai pelo caminho mais fácil como Madonna que, querendo parecer politizada, colocou uma foto de Bush beijando Saddam Hussein em seu show. Ou como Lady Gaga que continua agredindo a Igreja Católica, como se isso fosse uma grande transgressão (e novidade). “B” usa sua própria condição de mulher para provocar, indagar, problematizar: somos unidas? Queremos os mesmos direitos que os homens? Ser feminista é abdicar da minha feminilidade ou abusar dela? Beyoncé se equaliza com seu público quando assume sua vulnerabilidade e diz: sou mulher como todas vocês. Sim, tenho e quero trabalhar, cuidar da minha filha, fazer ginástica e ter tempo de qualidade com meu marido. Em um dos vídeos de explicação do seu novo disco, faz um retrospecto de sua carreira (que começou quando tinha apenas 9 anos) e pensa: será que valeu a pena todos os regimes, privações, abdicações para ser aceita e perfeita? O resultado você assiste abaixo: