Estava eu na sala de espera de um laboratório para fazer exame. Junto comigo, outras duas mulheres. Todas entediadas, cansadas, desacreditadas de ter que estar, ali em uma 4ª feira de manhã, quando o ideal era estar fazendo qualquer outra coisa.

Pois estávamos as três aguardando. Na televisão, Ana Maria Braga recebia um ex-participante do BBB 17 para seu maravilhoso café da manhã (tipo aquele que a Xuxa fazia, lembram?). Pacientemente, a apresentadora perguntava ao participante: “Mas, por que você chamou ela de verme? Mas, por que você brigou com fulano? Você não acha que perdeu a cabeça? O que você acha que foi um “erro de estratégia?”. Tudo isso com imagens intercaladas da “casa”. Barracos, gritos, baixaria. O ex-BBB respondeu que “o tempo todo manteve a cabeça no jogo” e que não se arrependia de nada. Mais imagens de agressões, xingamentos, bebedeiras, choro. São dezessete anos. Quase duas décadas de Big Brother Brasil.

Não sei como nós três sobrevivemos àquela meia hora de BBB na sala de espera do laboratório. Foi impossível não olhar as cenas de agressão que passavam na TV. Será a curiosidade humana é uma coisa mórbida? São dezessete anos, gente. Dezessete anos que esse programa tem audiência. Dezessete anos que os maiores portais desse país se dedicam a cobrir esse show de horror. Dezessete anos que muitas pessoas assistem e aplaudem o pior do ser humano: a competição, a humilhação, os barracos. Dezessete anos que telespectadores riem da cara de outras pessoas, torcem pela fofoca, pelo fuxico, pelo exibicionismo. Dezessete anos que essa violência é exposta sem ninguém questionar. Ou é normal uma pessoa ficar 30 horas de pé, sem poder sentar, embaixo do sol, para ser “líder”, para ter o “poder” para “ficar milionário”?

Qualquer esperança na humanidade é capaz de acabar quando nos damos conta que há dezessete anos esse programa está no ar expondo o que há de mais baixo nas relações entre pessoas que não escolhem conviver e que convivem para quê? Não tem afeto, não tem humor, não tem verdade. Então o que é que tem? Apenas a curiosidade mórbida das pessoas em assistirem outras pessoas se odiarem?    

Para minha surpresa, essa semana outro ser humano – diferente daquele que já chocou as três na sala de espera –  foi expulso da casa por conta de violência praticada contra uma mulher.

E eu pergunto: até quando?