A cena é clássica e quase cotidiana: você, recém-saída do banho – ainda com o cheiro do shampoo se espalhando pela casa -, parada diante do armário. Todo dia pensa a mesma coisa: hoje não vou sofrer para me vestir. Afinal de contas, vá lá, o que é uma roupa? Para que superestimar esses códigos estéticos? Ali está você, diante do seu mundo pessoal de possibilidades, escolhidas com tanto afinco e amor ao longo dos anos: a saia preta com a camisa nova, o vestido xodó que você já usou semana passada, o lenço que você ganhou da sua tia no Natal e ainda não conseguiu combinar com nada… são tantas variações quanto as variáveis que te fazem começar a pensar qual será a roupa eleita do dia. Você olha a previsão do tempo: vai fazer calor. “Pronto. Um vestidinho, para que sofrer? Olha quantos você tem aí? De todas as cores e para todas as ocasiões”, é o que passa pela sua cabeça. Mas, quando você experimenta, não gosta. Um marca o quadril, outro tem um fiozinho puxado, talvez chova no fim da tarde… e, veja bem, você precisa perder 3 kg, portanto, não dá para ficar exibindo essas pernocas. (o sininho da neurose toca pela primeira vez). Tentemos uma calça jeans, então. Sem erro. Você pega aquele jeans que ama, sua companheira de todas as horas, e, quando vai vestir – ups -, ela está apertada. (sininho da neurose dá sua segunda badalada). Você respira fundo e diz em voz baixa: “Para de ser louca”.

O segundo round dessa odisseia é maravilhoso. Com dois sinais de que as coisas não vão bem, você já sabe diagnosticar que será um dia difícil pra se vestir. Por isso, acorda seu marido/ namorado e pede ajuda (não é isso que as pessoas que estão com dificuldade fazem?). Coloca a calça nova (comprada no último mês e que, desde então, você usa sem parar) e ele, adivinha?, diz que está ‘ótima’. Ufa! Um problema resolvido: a calça. Daí começa a busca pela blusa perfeita. Porque blusinha é como entrar na locadora (ok, eu sei que ninguém mais aluga DVDs, mas é uma metáfora), você sabe todos os filmes que quer ver, mas, na hora de escolher, esquece de todos. Com as blusas é igual. Você experimenta uma, duas, três, mas nenhuma é a que você gostaria. A que você queria está manchada de shoyu do japonês que você comeu na semana passada e esqueceu de lavar. Essa é a sinuca de bico de muitas mulheres. Queremos justamente aquela que não podemos ter naquele dia. Você escolhe tirar a calça. Olha para o armário, olha para seu marido e solta o mais clássico de todos os clichês femininos: “Eu não tenho roupa”. Faz isso com a maior cara de pau do mundo, a ponto de arrancar gargalhadas do seu homem. Sim, porque seu armário está abarrotado. Não cabem mais sapatos e, por mais que você limpe, doe, jogue fora, nunca há cabides suficientes para seus vestidos e casacos. (o terceiro toque do sininho vem aí, já com sinal de aviso: perigo à vista) .

Foto:Reprodução

Nesse momento, seu cônjuge já acordou, está sentado na cama, olhando no celular e repetindo a mesma frase – “está ótima” – desde a primeira prova. Você olha para a cara dele e pergunta, em tom desesperado – como quem implora por um milagre: “QUAL ESTÁ MELHOR?” E ele diz, impávido: “Todas estão ótimas”. Você respira fundo, engole os desaforos e tenta uma segunda pergunta: “COM QUAL EU ESTOU MAIS MAGRA?” E ele solta: “Você é magra. Está linda com todas”. Aí se levanta e vai tomar banho, te deixando sozinha naquele mundão de roupas jogadas em cima da cama. Com um pouco de lágrimas, já descabelada e atrasada, você finalmente pensa com a cabeça, para de neurotizar e coloca aquele primeiro vestidinho. À estaca zero e pronta para o trabalho. Amanhã a uma nova batalha começa…

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