Nada de novo no front. Outro dia, encontrei uma amiga de adolescência. Entre goles de cerveja e Coca Zero, falamos um pouco da vida, papo furado até que chegamos “no tema”. “O tema” foi a crise de enxaqueca que a fez ficar longe do trabalho durante meses. Depois, outras amigas chegaram na roda e “o tema” foi crescendo. Insônia de uma, gastrite nervosa de outra, 10 quilos a mais da terceira, doença de pele desencadeada por crise emocional da última. Todas em frangalhos. Todas em empregos super valorizados, em momentos de mudanças: querendo voltar a estudar, quem sabe ter filhos, programar um semestre em outro país. Só que nenhum desses planos parecia ser “permitido” por elas mesmas.   

Não é a primeira vez. Em outras ocasiões discutimos os “burn outs” e a política de algumas empresas que incentivam a competição de forma exacerbada entre seus funcionários. É preciso dizer que essa reflexão nada tem que ver o “largue tudo, mochile pelo mundo, se considere abençoado e diga como isso te fez bem”.  Tampouco se trata de geração mimada que deprime a primeira vez que leva um “não” do chefe ou que acha que suas necessidades pessoais estão acima das dos outros. O que discutimos são problemas sérios, que prejudicam não apenas a “qualidade de vida”, mas a saúde das pessoas.

Pergunta: quanto vale a sua saúde?   

É cada vez mais comum pessoas se vangloriarem de estarem trabalhando 20 horas por dia. Postarem fotos de noites varadas. De pilhas de relatório. Do plantão. Acharem uma coisa super legal ir dormir tarde e acordar cedo. Não ter tempo de ficar com a família.  Também não é raro “empresas fetiches” – essas que muitos acham que querem trabalhar – afirmarem em manifestos viralizados nas redes sociais – como é importante seus funcionários “dormirem pouco”, “se dedicarem em tempo integral”, “vestirem a camisa”, “viverem para a marca” e outros lugares comuns que ainda existem, mesmo em tempos de economia criativa.

Tudo isso é sério e está sendo valorizado em nossa sociedade, enquanto as pessoas estão ficando doentes. Seriamente doentes. Talvez a maior dessas doenças seja acreditar que isso é um valor em si. Que se matar de trabalhar e não ter tempo – ou energia, ou saúde, ou vontade –  para o resto (leia-se afetos, amigos, família, seu corpo, sua cabeça, seu lazer) te faz alguém melhor. Não faz. Ninguém é melhor do que ninguém. Trabalhando 3, 8, 9 ou 20 horas por dia. A vida passa, gente. É melhor começar a olhar menos para a “imagem” das coisas e mais para dentro de si.

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