E, em meio aos 47982652 compromissos de dezembro, nós conseguimos marcar nosso encontro. Uma veio de Brasilia, a outra desmarcou o almoço de família, a terceira se desdobrou em mil e chegou. E estamos ali, a nossa “patota”. Cozinhando, bebendo vinho, rindo, os cônjuges se conhecendo e os filhos  que crescem ­– em número e em tamanho — a cada ano. Todo mundo junto numa bagunça deliciosa que funciona tão bem. Cura a gastrite, ansiedade e qualquer outro sintoma psicossomático. A patota é melhor do que tarjinha preta. Se isso não é harmonia eu não saberia definir essa palavra.

Somos amigas desde a faculdade. Chegamos ali, em um começo de anos 2000,  de saias “hippies rodadas”,  com um pacotão de personalidade, com outros grupos de amigos, com referências diferentes. Cada uma de um canto e todas cheias de vitalidade e energia. Ao contrário das amigas de infância e adolescência, as minhas amigas da faculdade se tornaram amigas sem aquela coisa de  “formar a personalidade junto”, mas uma amizade que aconteceu por afinidade, por felizes coincidências e, no nosso caso em especial, por uma grande leveza — própria da época, acho eu. E assim sobrevive a nossa  “patota” mesmo em tempos tensos como os atuais.

Não nos vemos sempre, é verdade. Mas não existem grandes cobranças. Quem pode vai e,  quando estamos juntas, é uma delícia sem fim. Cada uma tomou um rumo na vida e nenhuma quer convencer a outra de que sua escolha foi a certa. Essa talvez seja um das maiores vantagens de uma amizade mais madura: quando não existe proselitismo. Orgânicos, carne vermelha, parto humanizado, religião, política. Cada uma faz a sua escolha. A  vida é muito curta para desperdiçar seu tempo tentando convencer os outros sobre suas opções. As pessoas têm seus motivos, escolhas, limitações. Na patota é assim. Cada uma faz da vida o que quer: come o que quer, casa com quem quer, separa de quem quer, mora onde quer.  Ou seja, é o tipo de amizade que deixa as pessoas livres para serem como são.

E este ano, que parece tão confuso e violento,  companhias especiais encheram a roda das nossas amigas secretas — a patota new-generation. Olivia, Valentina, Maria e Violeta. Meninas que nasceram, aprenderam a andar, falar, dar beijos. Menininhas que brincam juntas deixando as mães e as amigas das mães “babonas” de ver o afeto passar de geração em geração. Assim como nós, elas se sentam à mesa, conversam, argumentam, se jogam no chocolate e até dançam e cantam David Bowie (acreditem, é verdade e é de morrer de emoção). Daí tudo de ruim fica pequeno. O terror, as chacinas, a Cop-21, os tabefes e barracos da Câmara dos Deputados. O mundo é delas e nos enche, a todas,de algo muito bom, difícil de definir. Talvez seja uma tranquilidade de ver a continuidade do amor e da amizade.  Se for assim, estamos bem e estamos prontas para 2016. Pode vir.