Na semana do #AgoraÉqueSãoelas esse blog será ocupado por outra mulher. A ideia é que possamos democratizar as vozes femininas e entender que é fundamental que escutemos cada vez mais umas as outras. O machismo não está apenas nos homens, mas também nas mulheres e é nossa responsabilidade romper com isso.
Por isso, o espaço é todo de Manoela Gonçalves, fundadora da Casa das Crioulas. O projeto, localizado no bairro de Perus, oferece apoio a mães autônomas e incentiva o intercâmbio de experiências entre mulheres.

Feminismo pra quem?

Aos 18 anos engravidei mesmo tomando anticoncepcional. Não sei o que aconteceu, mas estava ali grávida. Comprei o cytotec, introduzi 4 comprimidos e tomei mais 2, não fez efeito. Não sabia mais o que fazer. Então, resolvi esconder a barriga.Tomei chás abortivos,coloquei agulha de lã dentro de mim, estava desesperada e sozinha, meu namorado na época, mesmo preocupado,ainda queria transar. Fiquei com nojo dele e segui sozinha. Me envenenei com a tal buchinha do norte, fiquei dois dias no hospital para limpar meu estômago.

Aos quase 5 meses de gestação, quando já havia desistido do aborto, todos os abortivos fizeram efeito de uma vez. Fui ao hospital, cheguei lá o bebê estava descendo. Foi o suficiente para me largarem em uma maca e chamarem a polícia. Aplicaram a hack em mim. Não sentia minhas pernas,estava sozinha, todos que estavam ali me insultavam, me viam sentindo dor e diziam que era minha culpa, que merecia tal tratamento. Quando o médico me obrigou a dar meus dados e contatos, passei o número falso e não sei até hoje com que força consegui sair de lá andando, cheia de sangue. Pedi carona no ônibus, cheguei em casa e nunca mais vi o tal namorado.

Em meados de 2006 namorei com um cara que tinha prazer em simular estupro comigo. E fazia igualzinho. Este mesmo cara, me humilhava na frente de outras pessoas, não saía comigo se estivesse vestida inadequadamente (roupas curtas,decotes,cabelo solto). Eu não conseguia sair desta relação porque, apesar de tudo, achava que era amor. As agressões físicas vieram depois de um grito que eu dei, dizendo que não aguentava mais aquela vida presa. Saiamos na porrada e logo vinha o estupro, era porrada e estupro, nesta ordem. Em uma dessas vezes de tanto levar porrada na barriga eu perdi um bebê. Foi o presente que ganhei no Natal de 2007: um aborto provocado por surras. Em meus relacionamentos entendia que era normal um cara gozar e virar para o lado e dormir. Que era comum o cara fazer comigo o que ele via nos filmes pornôs. Aceitava qualquer pouca coisa porque tinha entendido que abusos,agressões, destruições de autoestima, torturas emocionais, controle e posse eram sinônimo de amor e querer bem.

Foi quando meu filho nasceu e aquele sonho de Cinderela foi para o ralo, que comecei a entender que amor não é no berro nem no grito, que sexo não é agressão física a ponto de quebrar um nariz, uma costela ou clavícula. Tive que aprender na marra a desconstrução da maternidade para não passar estes padrões ao meu filho.

Quando caiu a ficha que – além de todo este histórico – eu seria mãe solteira de fato, a transformação foi inevitável. Tive tempo de sobra para perceber e entender sobre esta opressão que não era só comigo. Muitas mulheres, no mesmo quadro de violência,  faziam parte de uma estatística assustadora. No fundo, a revolta de perceber o quanto fui oprimida,  foi o início do feminismo despontava em mim. Estudando, pesquisando e entrando em contato com outras companheiras, senti que minha libertação estava começando. Através da militância feminista, pude assumir ser protagonista de minha história. Só quem sabe do respiro aliviado após tantas agressões e violências pode falar sobre o feminismo.

Eu sei por mim, o quão libertador, cortador de amarras e empoderador é existir uma militância que nos contemple simplesmente por existirmos e que lute pelo merecimento da igualdade.

Hoje em dia, além de curar minhas histórias, fundei um espaço para co-criarmos esta validação de direitos. Fundei uma casa para o empoderamento, protagonismo e autonomia das mães solteiras – que prefiro chamar de mães autônomas. Se chama Casa das Crioulas e trata-se de um espaço onde não precisamos ser guerreiras. Aprendemos que sermos nós mesmas já é muita coisa. A casa acolhe, ouve e transforma aflições em mosaicos, aromaterapia,conversas, bazares, tudo menos trauma. Temos uma loja de produtos naturais- que é o espaço que sustenta a casa e onde outras tantas meninas mulheres buscam ajuda, soluções para abortivos naturais, contraceptivos e escuta. Enquanto existirem leis que decidam por nós, por nosso corpo, teremos histórias parecidas com essas. 

Tenho 32 anos, sou mãe autônoma e achei meu lugar no mundo:  poder empoderar outras mulheres para que não sejam mais reféns de suas histórias. Que através de nossos traumas encontremos a cura para tanta opressão. E ela começa por nós! Agora é que são elas.

Manoela Gonçalves