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Este post é uma merecida homenagem a um talentoso e quase desconhecido artista: Paulo Barroso. Você já ouviu falar nele? Não? Que maligno sistema (dito) cultural é esse que lhe priva do prazer de cantarolar a pungente Guerramor (parceria dele com o excelente letrista Miguel dos Santos), de seu primeiro disco. Ou a impressionante Largo do Destino, também da mesma dupla, mas já do mais novo cd. Que máquina perversa é essa que te impede de se emocionar com a lírica e comovente Flor do Amanhã (parceria com o saudoso Edno Filizola) ou de se imaginar planando sobre o Brasil como o personagem de Mares de Minas (modéstia às favas, uma linda canção dele comigo)? No final do ano passado, Barroso convidou a imprensa para o lançamento oficial de seu site, clipe e disco duplo. Uma árdua e portentosa realização para um artista sem apoio da mídia, nem patrocínio de canais oficiais. Eu estava lá, como amigo e parceiro recente, e comprovei que não havia nenhum repórter dos cadernos culturais. Mas aqui,  nesse blog que aborda os saraus e seus criadores, este espaço de tesão artístico livre, sem pressões do circuito comercial, faz-se obrigatório divulgar seu nome e sua brava história musical de 45 anos. Paulo participou de vários festivais escolares nos anos 70. Lançou Vozes da Cidade, um belíssimo disco independente nos anos 80. Tocou numa ou noutra estação de rádio, teve algumas críticas positivas, inclusive no Estadão, e só. Então, resolveu cuidar da vida. Montou uma produtora de vídeos onde trabalhou durante os anos 90. Mas sempre que a saudade batia, ele voltava à música, fazendo shows, formando grupos e lançando cds: um com clássicos do samba, outro de chorinho e um terceiro sobre a obra de Tom Jobim, além de um espetáculo denominado Badeatles. E foi em 2012, em meio a shows, festas e encontros de amigos para arrecadação de fundos visando a produção de seu álbum duplo As Marés, que se formou o Sarau da Maria, entidade que há 3 anos movimenta a vida cultural da Vila Maria e região. Das realizações do Sarau da Maria tenho falado frequentemente neste blog. Paulo Barroso não faz parte do grupo que o fundou nem é um dos seus organizadores, mas não se pode deixar de citar a importância de seu papel catalisador, de seu espírito agregador, de sua capacidade de unir amigos para cantar, jogar bola, viajar ou participar da vida política e cultural. É essa figura icônica da Vila Maria que acaba de lançar um álbum duplo, com 28 canções no mínimo interessantes (algumas muito belas), de ritmo e temática variados, com arranjos sofisticados e revelando ótimos cantores, entre eles, destaque para a bela e cristalina voz de Deise Capelozzaque interpreta cinco canções: duas cantando solo (Três por Quatro e Pegadas, pontos altos do disco), uma em dueto com José Carlos Cordeiro (a belíssima Flor do Amanhã) e outras duas em grupo (Alguns Aspectos de Nossas Vidas e A Nova Maré). Leitor, você ainda vai ouvir falar muito de Deise Capelozza, que em breve gravará seu cd. Aguardemos.

 

Voltando à festa de lançamento: além dos jornais, o rádio e a tv também ignoraram seu convite, claro. Por que será? Por que nossos meios de comunicação não estão abertos a divulgar músicos como ele, que tem longa trajetória, postura íntegra e criação musical autêntica? Será que ele não tem qualidade suficiente? Ou porque ele não é mais teen? Ou porque seu som não se encaixa nos padrões idiotizantes vigentes? Ou porque sempre foi frontalmente contrário à ideia de pagar jabá pra tocar? O que talentos como Paulo Barroso precisam fazer para ter ao menos uma de suas canções executadas numa estação de rádio brasileira? Cantar em inglês? Colocar à sua frente moças siliconadas e rapazes anabolizados, realizando coreografias sensuais (só-que-não) enquanto ele entoa seus frevos e sambas críticos, ao fundo? Escrever letras banais com onomatopaicos refrões? Isso ele não faz, claro. Ironias à parte, Barroso não é desses que se rendem aos pasteurizadores da cultura. No fim das contas, é uma pena que tenham negado, a você leitor e ao público brasileiro em geral, a possibilidade de conhecer a música original desse artista singular. E de tantos outros… Mas aqui você fica conhecendo muitos deles. Este Sarau, luau e o escambau luta ao lado dos artistas que resistem e criam suas obras à margem dos jabás e demais vícios corruptores (e empobrecedores) do balcão de negócios da indústria cultural.

 

Neste link, acesse seu primeiro disco, Vozes da Cidade, inteiro. Repare que, para um trabalho musical do início dos anos 1980, os arranjos resistem, atemporais, acima dos modismos. Separei três canções que não se pode deixar de ouvir: Levitação (contando a incrível e arrepiante história de Luiz Alfredo, o homem-avião), a belíssima Campanha (também conhecida por Guerramor, que tem orquestração monumental) e a sensacional levada jazzística e nordestina de Clarisse Otoni.

 

 

Para quem gosta de curiosidades, pesquei na net o link de Paisagem Noturna, bela canção praieira que foi regravada 30 anos depois pelo talentoso Conrado Pera (filho do compositor), com o nome de Jangadeiros, em seu elogiado cd Enlaçador de Mundos. Posto abaixo, mais para curtição do que comparação, a gravação original do Barroso e uma ao vivo do Conrado (de seu show recente no Centro Cultural São Paulo).

 

 

Não é nada fácil para um artista alternativo, em meio às dificuldades cotidianas (falta de grana e de de tempo), realizar uma façanha dessa magnitude e conseguir colocar toda a sua obra em cds e na internet. O Paulo Barroso criou um site onde registrou (e vem atualizando) a sua trajetória musical. Músicas, letras, áudios, vídeos, fotos, depoimentos… Lá, você tem acesso até a gravações de shows dos anos 80, que foram feitas originalmente em fitas-cassete, e agora estão devidamente digitalizadas. Visite o site e viaje por vários outros links:

 

http://paulobarroso.mus.br/

 

Além da Deise e do Cordeiro, que citei lá na abertura, há outras participações muito especiais. As vozes do João Marques (na canção … e só), do José Carlos Guerreiro (em No Fundo do Poço) e da grande cantora Susie Mathias em arrebatadora interpretação de Maria Terremoto. A do já citado Conrado Pera, artista-revelação, que canta com o pai o delicioso frevo Fervor. E os vocais da Helen Torres e de vários outros amigos, sem esquecer os inúmeros músicos convidados e a presença luminosa da Aduzinda Barroso, na produção geral.

 

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Os cds têm uma apresentação gráfica primorosa, em tamanho de disco de vinil. A capa dupla traz as letras das canções alojadas no lugar onde tradicionalmente ficariam os discos. Ao abrirmos a capa, nos deparamos com uma bela fusão das imagens de todos os artistas que participaram do projeto. E os dois cds estão afixados um em cada canto do miolo (embaixo e no alto), simbolizando as fases da lua que flutua ao sabor das marés de gentes, nomes e canções. Esse design é digno de prêmio e envolve vários artistas criadores: a aquarela de Luiz Carlos Afonso, as artes do Miag Makibara, os poemas do Wagner de Paula e do próprio Barroso e as fotos do Gustavo Pera, que também coordenou o making-of. Assista e mergulhe na emoção desse trabalho coletivo que o Paulo Barroso encabeçou:

 

http://paulobarroso.mus.br/making-of/

 

É preciso explicar ainda que o precioso álbum As Marés se divide, física e conceitualmente, em dois cds: Maré Brava e Maré Mansa. Como ele ainda não disponibilizou as faixas pra downloud, deixo aqui o link pra quem quiser adquirir o disco.

No cd Maré Brava, o artista expõe as músicas com temática social mais explícita, algumas delas compostas ainda sob a ditadura. Abaixo, trechos das 14 canções de Maré Brava:

 

 

E aqui os trechos das 14 canções do cd Maré Mansa, com temas identificados com a barra mais leve vivida desde o começo da democracia, após duas décadas de ditadura militar.

 

 

Sobre o Paulo Barroso escrevi:

 

E ele se deslocava pedindo a pelota: ‘Badão é bola, Badão é bola!’.
O Paulo Barroso, também conhecido por Badão, sempre foi assim. Nunca fugiu do jogo, não é daqueles que se escondem. Seja no futibas, na postura contra a ditadura ou na feitura dos discos independentes, dos quais foi pioneiro. Badão joga nas 11, não é pipoqueiro, corre atrás, toma a iniciativa, quer vestir a 10. Agora, no cd ‘As Marés’, se superou. Poderia ter feito o gol sozinho, mas juntou o time todo dos velhos amigos. Um verdadeiro Clube da Esquina da Vila Maria. Generoso, abriu espaços e faixas solo, entre beijos e melodias, abraços e parcerias. Presenteou com canções, fotos, exposições. E criou um belo objeto coletivo, um mosaico afetivo, uma colcha de retalhos solidários e reativos. Muitas vozes e timbres, emoções reverberando, sentimentos interativos. A liga da vida sedimentada pela arte, de braço dado com a amizade. Falando nisso, entre todos os artistas amigos ou conhecidos, é dele a música mais cantada e admirada: ‘Campanha‘ é nosso hit, o grande clássico da quebrada. Golaço desse craque de tantas cantatas e noites passadas na praça. Mas no campo pessoal, Badão atravessou uma barra muitíssimo pesada. Ninguém acreditava, mas o danado sobreviveu. Agora ele canta de galo pra quem duvidava: ‘O camisa dez sou eu!’.

Badão é bola. É nas cordas do violão que vibra a fibra do seu coração. Badão é canção. No bojo da viola, ele bate um bolão.

 

E, pra finalizar, o divertido clipe da nossa parceria Eu Vi Ela na Viela, que relata uma rocambolesca desilusão amorosa, com ingredientes de heroísmo, perseguição e faroeste-espaguete. Confiram:

 

 

 

 

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AGENDA

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Quarta-feira – 18 de maio – 21h … Adolar Marin e Convidados … Na Minha Casa é um programa em que o cantor e compositor Adolar Marin recebe artistas que cantam e nos contam sua trajetória. Agora, o programa virou show. Os convidados desta edição são Kleber Albuquerque, Manuel Filho e André Marchiori. Em Santo André.

 

 

Quinta-feira – 19 de maio – 19h … Lançamento ‘Livro de Rovana’ … Romance de Joaquim Maria Botelho sobre a saga de uma portadora da Síndrome de Alport, que aprendeu a ler e a escrever antes de aprender a falar. Na Academia Paulista de Letras.

 

 

Quinta-feira – 19 de maio – 21h … Gero Camilo canta Belchior – Show: “Alucinação” … O conhecido ator (e também bom cantor) Gero Camilo, acompanhado pela banda Caroço de Aurora, canta na íntegra o cultuado disco do cantor cearense. No Centro Cultural Rio Verde, de R$25 a R$35.

 

 

Sexta-feira – 20 de maio – 20h … Anacã Cia de Dança Rafael LuzCarolina de Sá e os demais bailarinos da Anacã apresentam o belo espetáculo Ele&Ela, em Jundiaí. Coreografia de Edy Wilson De RossiGrátis. Retirar convites na bilheteria a partir das 9h.

 

 

Foto da capa

Sexta, sábado e domingo – 20, 21 e 22 de maio … Virada Cultural 2016 … Nesta edição, o evento terá uma premiere na sexta-feira. No perímetro entre a Avenida Ipiranga e a Praça da Sé, cerca de 12 pontos receberão atrações artísticas gratuitas das 17h às 23h, numa espécie de aquecimento para a Virada. No sábado, a festa começa às 18h e segue até a noite de domingo. Muitos saraus e artistas alternativos estão incluídos na programação. Consulte o site www.viradacultural.prefeitura.sp.gov.br

 

 

Sábado – 21 de maio – 14h … Sarau do Peixe – Trabalho … O tema deste mês é trabalho e o poeta homenageado é o vencedor do mini slam de abril, Daniel Lobo. Haverá show de viola caipira com Jackson Ricarte e lançamento do livro Espinheiros, de Guilvan Miragaya. Além do palco aberto, pocket-show com Luck Vas. De graça, na Casa Balaio.

 

 

Sábado – 21 de maio – 14h … Sarau na Álvares de Azevedo … Sarau com o grupo Poetas do Tietê e convidados, dentro do Programa Veia e Ventania. Na Biblioteca Pública Álvares de Azevedo, na Vila Maria.

 

 

Sábado – 21 de maio – 18h … ROCK INSANE … Banda toca o melhor do repertório de rock e blues, além de relembrar grandes clássicos da música pop. No Carauari Bar e Mercearia, na Vila Maria. Entrada grátis.

 

Sábado – 21 de maio – 18h … Sarau Encontro de Utopias … A poeta Sandra Regina lança seu livro Visita Íntima e o cantor Rodrigo Ciampi faz o pocket-show. Com palco aberto. No Centro Cultural São Paulo.

 

 

Sábado – 21 de maio – 20h … Lado B / Lado A – Marcelo Amazonas & Luiz Cláudio de Santos … Grandes nomes da mpb, como Chico, Caetano, Adoniran, Tom e Cartola têm canções de muito sucesso e algumas menos conhecidas. No show, os músicos alternam os lados A e B dos mestres, além de composições autorais. No espaço Corisco Mix, em Santos.

 

 

Sábado – 21 de maio – 21h … Banda USTOP no Bar do Lê … Clássicos do rock no mais tradicional ponto de encontro dos roqueiros da Vila Maria. Grátis.

 

 

Domingo – 22 de maio – das 10h às 18h … Jardim Cultural da Vila Nilo: Mutirão Ocupação Verde, Arte e Cultura … Projeto busca integrar a comunidade ao meio ambiente através da educação socioambiental direcionada à cultura e à arte. Com oficinas ecológicas, interferências artísticas e brincadeiras interativas.

 

 

Segunda-feira – 23 de maio – 20h … Viver é Acreditar II – ESTREIA – Cine Olido … Documentário conta a história de Viegas, Júnior e Peterson, músicos independentes, que saem pelas ruas de São Paulo com o objetivo de vender 5 mil cds. Ao desbravar a metrópole, descobrem a dura realidade de quem depende do comércio ambulante para sobreviver. Uma história de superação e esperança que traz em si o fortalecimento da amizade e do sonho. Direção de Grazie Pacheco e Marcos Viegas.

 

 

Terça-feira – 24 de maio – 19h … Palestra sobre Lampião, seus inimigos e o cangaço … O jornalista e escritor Moacir Assunção, autor do livro Os Homens que Mataram o Facínora, dá palestra sobre Lampião e o impacto do cangaço na cultura brasileira. É necessário se inscrever no link https://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/atividade/a-historia-dos-grandes-inimigos-de-lampiao. Na Bela Vista.

 

 

 

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POR HOJE É SÓ, AMIGOS.

BOA VIRADA CULTURAL A TODOS!

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