FICÇÃO: Imagine um país de terceiro mundo, com mil problemas sociais, que nem sequer resolveu questões básicas como saneamento, saúde e educação… Imagine que nesse país as tevês transmitam uma programação supostamente ‘religiosa’, com supostos ‘padres, bispos, apóstolos e pastores’ discursando diariamente, simultaneamente e a todo instante… Supõe-se que a população carente desse lugar vá crer em algo, mesmo que não saiba exatamente em quê… Se os telejornais martelarem cotidianamente uma opinião ‘x’, é bem provável que essa opinião ‘x’ se torne majoritária… E se os comerciais alardearem os benefícios de um suposto sabonete de jiló, supõe-se que suas vendas provavelmente subirão… E se todas as emissoras de rádio executarem o mesmo tipo de música, é essa música que será representativa da identidade nacional, a que formará a memória afetiva da população… Ficção ou não-ficção, eis que nos aparece um incauto e inculto deputado chamando a nós, artistas, de vagabundos e oportunistas, e nos acusando de mamar nas tetas da nação. Logo ele, que ascendeu na carreira política (‘político’ é profissão? ‘pastor’ é profissão?) às custas de explorar a boa-fé de pobres, doentes e necessitados. Supõe-se que um estado laico e democrático deva ter uma legislação eficaz que puna exemplarmente os exploradores, preconceituosos e excludentes. Fomos desrespeitados como artistas, trabalhadores e cidadãos por um deputado! Obviamente, esse desequilibrado não tem condições de exercer seu mandato. Supõe-se que um representante do povo não possa ofender o povo. Indignado, aguardo sua cassação. Ficção.
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UAI: UM QUASE
MANIFESTO
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Minha atuação nos movimentos culturais e políticos teve início em fins dos anos 1970. Ainda adolescente e sob ditadura, já engendrava grupos, grupões, supraentidades e mega-associações. Elementar, meu caro Buarque: todos juntos somos fortes, não há nada a temer, como já cantarolavam os ‘bichos’ da peça Os Saltimbancos. Desde a criação do Sarau da Maria, me acompanha intimamente o desejo de união com outros saraus para ampliar os espaços e dar mais exposição às muitas vozes boicotadas que compõem a alma nacional e não são sequer ouvidas. Representatividade é a palavra pisoteada diariamente pelos jabás, a tal propina que rola solta nos meios de divulgação da cultura. Cultura essa, já tão vilipendiada, reduzida apenas ao entretenimento, que é o que ‘vende mais’, dizem ‘eles’. Emissoras de rádio e tv são concessões públicas, vale lembrar, e nos devem uma contrapartida social. Talvez seja esse o melhor momento de cobrar por essa representatividade, pois, quando a indústria do disco informa que 75% das músicas executadas em 2015, num país tão diversificado como o nosso, são de um único estilo (o sertanejo, no caso), é óbvio que há algo errado aí. Alguma coisa está fora da ordem, pra citar outro poeta e essa mofada e dúbia palavra (ordem) muito usada no período militar, mas que parece ter voltado à moda, lamentavelmente.
Toda essa introdução é pra chegar aonde, uai? É pra chegar na UAI, uai! União dos Artistas Independentes. Em meu post anterior, sobre o grande e desconhecido compositor Paulo Barroso, culpei as práticas corruptas da indústria cultural por impedir o acesso do público a artistas como ele. O próprio Barroso e alguns outros nobres batalhadores da ‘causa’ fizeram eco e repercutiram o post nas redes sociais. Das muitas conversas deles nasceu a ideia de criar a UAI, uma entidade que, através de debates e ações conjuntas (virtuais e físicas), exija o cumprimento de leis (ignoradas) e cobre nossos direitos, conseguindo assim ampliar o parco espaço dos artistas ‘alternativos’ no rádio e na tv. Isso proporcionará aos ouvintes e espectadores uma mais fiel representação de nossa diversidade cultural. Sobre a UAI e seus primeiros passos (mesmo que lentos), informarei aqui, regularmente.
Claro que isto é só um pequeno anúncio de que algo grande pode acontecer. Saraus, grupos teatrais e musicais, poetas e escritores, artistas excluídos em geral: uni-vos! A UAI precisa de cada um de nós.
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ENCONTRO 

DE UTOPIAS
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Fui a um sarau com o nome mais belo entre todos que conheço: Encontro de Utopias. Organizado pelo coletivo de mesmo nome (composto por Cleusa Santo, Nicanor Jacintho, Fábio Abramo, Renato Pessoa e Regina Tieko, que é também apresentadora e cantora) o sarau me proporcionou um prazeroso final de tarde no Centro Cultural São Paulo. Performances muito instigantes de poetas e músicos de várias partes da cidade, uns mais outros menos tarimbados, jovens e veteranos se alternando num clima de troca e completude. Um mosaico vivo e multicolorido da nossa diversidade cultural. Importante: os artistas (que autorizam) são filmados e obtêm um vídeo de alta qualidade pra divulgar seu trabalho nas redes sociais. Legal, né? Deixo com vocês dois desses vídeos. Um, da ótima cantora Indy Naíse, que fez um pocket-show acompanhada pelo violão do Airton Júnior. Aqui ela canta Roda da Vida, uma bela composição de Camila Trindade, junto à bela voz da autora. Na sequência, ouçam o cantor e compositor Aloysio Letra interpretar seu lindo samba-enredo que conta a história do esquecido soldado negro Francisco José das Chagas, o Chaguinha, mártir da luta pela liberdade.

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NA MINHA CASA: 
A CAMPANHA
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Já falei aqui várias vezes da importância do programa de entrevistas Na Minha Casa, apresentado na internet pelo grande músico e compositor Adolar Marin. Figura carismática e generosa, ele abre espaço tanto para jovens e promissores artistas independentes, quanto para aqueles com longa carreira e vários cds gravados, mas que não têm a merecida divulgação na grande mídia. Além do papo reto e informativo, que sempre nos esclarece algo sobre a árdua batalha dos músicos alternativos, Adolar também acompanha os artistas ao violão e, ao final, na seção Dica sem Jabá, ele ainda nos indica algum cd legal entre os muitos e diversificados que recebe de cantores e instrumentistas de todas as regiões brasileiras. Como o Adolar não faz tudo sozinho e manter uma equipe de produção custa dinheiro, eles tiveram algumas ideias para levantar fundos e dar sequência ao belo projeto. Este blog louva o esforço do Adolar em prol de nossa boicotada música, apoia a continuidade do programa (assim como incentivará o surgimento de outros semelhantes) e desde já se engaja nessa empreitada. Peço a todos que ouçam o que eles têm a dizer, conheçam os detalhes da campanha e colaborem com ela. Ou ao menos a divulguem. Nesse momento em que a vergonhosa disseminação da prática do jabá impossibilita ao público ter acesso à diversidade da produção artística nacional, trabalhos como esse são mesmo imprescindíveis. Saiba mais no link
E, pra quem ainda não conhece, deixo aqui uma edição desse programa tão legal: a entrevista com o brilhante compositor  (e ator) Élio Camalle, que participou de musical do Oswaldo Montenegro, de filme do Alain Fresnot, tem músicas gravadas por Daniel Gonzaga e Fabio Jr, além de cds lançados na Europa e no Japão. Monsieur Eliô hoje mora na França. E o Brasil ainda não descobriu o Élio. Descubra você:

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ECOMPOR:
ATENÇÃO, LETRISTAS!
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Apesar da caretice reinante, do ar oligárquico, recatado e do lar que impera sobre nossa nação Tupi, sempre aparecem uns malucos maravilhosos cheios de ideias incríveis que extrapolam os formatos tradicionais. Um superdescolado grupo de músicos, atores, designers, fotógrafos, videomakers e demais pensadores da coisa artística bem acabada, está com um projeto superlegal para o letrista que queira ouvir seu texto embalado por uma melodia mas não sabe como fazer. O Ecompor convida todo e qualquer operário da palavra a enviar seus escritos, letras, poemas, ideias, rascunhos ou rabiscos: tudo que possa disparar o gatilho da criação. Os textos escolhidos serão trabalhados, musicados e produzidos por uma equipe de compositores como Rodrigo Bottari, Vinícius Dias Zurlo, Ekena Monteiro, Guilherme Garboso e o performático e já (um pouco) conhecido Liniker, entre outros. Os autores dos escritos escolhidos participarão do processo e serão registrados co-autores da obra, junto aos demais que colaborarem. A produção e o processo serão compartilhados através de canais na internet. Enfim, uma equipe de craques somando habilidades individuais pra desembolar o meio-de-campo e fazer um golaço coletivo. Como diz o poeta das melodias, se intere da coisa sem haver engano.

http://www.ecompor.com/

Para conhecer melhor o projeto e poder recomendar a vocês, vasculhei a net e xeretei a produção individual deles. Os caras fazem rock, instrumental com pegada de jazz, mpb, música ambiente, pop grudento e são, enfim, devotados ao ecletismo e à inovação. Portanto, acho que pode rolar coisa boa, sim. Para ter uma ideia dos sons que vão se misturar, ouça uma seleção de músicas desses compositores aqui. O convite está feito. Pra terminar, A noite que durou dias, uma bonita canção com o Vinícius e a Ekena, dois dos artistas supertalentosos do grupo.

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AGENDA
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25 de maio – quarta-feira – 19h … 2ªEdição – Sarau na Padoka – Ocupa quente: Poesia que aquece! …  Sarau na primeira padaria cultural da cidade. Microfone aberto e campanha de doação de agasalhos para instituições que lidam com moradores de rua. Lançamento do livro O canto do Lobo, de Lobinho e do cd Revoada, de Vieira Pato. E mais as intervenções dos poetas do MAP (Movimento Aliança da Praça).
 
25 de maio – quarta-feira – 20h … Tarancón – Música Latinoamericana … Esta apresentação integra o Seminário Brasil Latino: Revelando a América Latina para a Educação Paulistana. Reservar convites pelo fone 2563-6145. No Teatro Luiz Gonzaga, CEU Curuçá.
28 de maio – sábado – 14h … 42ª edição – Sarau Poesia é da hora (Maio 2016) … O coletivo Poesia é da hora realiza saraus para pessoas em situação de rua. O evento será no Centro de Acolhida Florescer, o primeiro que abriga apenas transexuais e travestis. Pocket-show com as rappers da ZL: Issa Paz e Sara Donato. Participação de pessoas em situação de rua e convidados recitando e cantando. Dicas culturais e apresentação com a poeta Ana. Filmagem da web TV Art MultCultural, com Nicanor Jacintho.
28 de maio – sábado – 15h … Sarau na Adelpha … Coletivo OsRetirante apresenta releitura poética da obra de Guimarães Rosa. Sarau com palco aberto. Programação faz parte do projeto Veia e Ventania, que corre risco de ser extinto. Os coletivos de saraus lutam para que a programação permaneça atuante nas bibliotecas públicas. Este blog endossa.

28 de maio – sábado – 19h … Sarau do Grajaú … Palco aberto. Os convidados desta edição são o poeta Guilvan Miragaya, que lançará o seu segundo livro Espinheiros e o multi-artista Ricardo Nash, com seu cd Santo Menino Vagabundo. O músico fecha a noite com um pocket-show. No vídeo acima, sua bela canção, Quando Amanhecer.

Foto da capa

 28 de maio – sábado – 19h30 … Loop B – Estética da Fúria … O genial percussionista das sucatas Loop B vai batucar num carro. Sua MEB (música eletrônica brasileira) destacará composições pesadas, combinando com a temática do filme Mad Max – Estrada da Fúria, que será exibido após o show, no Cine Chaparral (você pode assistir ao filme dentro do seu carro ou em pé). O show e o filme são grátis. No local, food truck com cervejas especiais e hambúrgueres artesanais, inclusive o vegetariano, fazem parte da festa. Curtam um pouco do som inventivo do Loop B:

28 de maio – sábado – 20h … JAM SAMPA 2016 … A cantora e compositora Kana Nogueira volta a apresentar sua tradicional Jam Session, acompanhada por Ellen Arruda na guitarra, Rogério Clementino no baixo, Pedro Teixeira na percussão, e ela própria ao teclado. No repertório, jazz, mpb, música latina e canções autorais. Se você é músico, traga seu instrumento. Entrada: R$ 10. No Empório Brasileiríssimo.
28 de maio – sábado – 23h … Keops e Raony, Mirant e Belga Bordô + Open bar de cerveja até 01:00 AM. em Guarulhos … Festa na Void Club. Keops e Raony, os gêmeos da banda Medulla fazem o pocket-show de abertura. As bandas  Mirant e Belga Bordô completam a noite. Na pick up o dj Lucas Furtado, preparou um set com o melhor da música brasileira. R$25,00. (R$15 com nome na lista).
29 de maio – domingo – 16h …Sarau do Castelo HansenPalco aberto para música, poesia, dança, teatro, causo ou qualquer outra manifestação artística. Na Casa dos Cordéis, sob a coordenação de Bosco MacielRogério Brito e a apresentação de Osvaldo Alves.
 31 de maio – terça-feira – 19h30 … Sarau Paulistano 8 – Eunice Arruda … Evento gratuito com leitura de poemas, lançamento de revista e microfone aberto. Eunice Arruda é a poeta homenageada. Na Livraria Aliança Sebo e Cafeteria.
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SEMANA QUE VEM TEM MAIS.
ATÉ LÁ!
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