Ah, como eu gosto de escrever aqui. Como dizem alguns dos meus amigos nordestinos, gostcho muitcho! Mas hoje meu prazer é ainda maior, pois vou falar de pernambucanos e baianos, de amigos véios e talentosos, como Café e Edigar. De brilhantes artistas jovens como Conrado Pera e Indy Naíse. E de ídolos admiráveis que me acompanham há tantos anos, como Geraldo Azevedo, Alceu, Elba, Vital e Elomar. Ah! meu coração já quer voar… Além desses papos musicais, vou apresentar um grande poeta do circuito dos saraus que todos já deveriam conhecer, pois é um dos mais geniais: essa figura rara chamada Vlado Lima. O cara tanto escreve poemas profundos cheios de referências e citações como canções superengraçadas e politicamente incorretas, como a sátira “Macoñero’ postada logo abaixo desse seu ‘cartão de visitas’. Leiam, ouçam e se deliciem. 

 

QUEM É O CARA?

Possui poderes intermináveis.
Não terminou o catecismo,
não terminou a faculdade de jornalismo
nem o curso de datilografia.
Especializado em fazer inimigos,
contar piadas de caipira e falar da vida alheia.
Nunca foi à Bahia.
Odeia João Gilberto e não suporta filme iraniano.
Gosta da bisteca do Sujinho, revistas do Aranha, Pernalonga,
Clint Eastwood, Valéria Valença, Smiths, Neil Young,
Sérgio Sampaio, Leonard Cohen, Hammet e Fante.
É viciado no sanduba de pernil do Estadão
e tem saudades da Seleção de 82: Sócrates, Zico, Júnior e Falcão. Lembra?

A OBRA DO CARA

Vlado Lima é compositor, poeta e agitador cultural.
Tocou em botecos de 3ª do velho oeste
e até num extinto inferninho da Avenida Pacaembu.
Foi demitido deste último, segundo as meninas da casa,
por que ‘tocava’ demais.
Integrou o Colégio Brasileiro de Poetas de Mauá
e fez parte de algumas coletâneas.
Montou e liderou algumas bandas, entre elas a Amálgama,
a Divina Decadência, Kanalhas Futebol Clube e os Tropeçalistas.
Todas foram pro brejo.

 

 

‘Macoñero’ é um sucesso retumbante em todo canto que o Vlado vai. Eu sempre lhe digo que um dia vai aparecer uma nova banda irreverente, ‘tipo Mamonas’, e gravar essa música. Aí finalmente ele vai conseguir pagar as muitas contas penduradas nas leiterias (tem muitos filhos) e bares (tem muitos amigos). Sobre sua cativante persona e obra poética única escrevi o seguinte texto:  

 

Que o Vlado Lima é um poeta da estirpe dos ‘baitas’ (como diz o Akira) todo mundo sabe. E que ele é um dos tops do circuito de saraus, poucos hão de discordar. O cara tem estilo. Um Iessienin preguiçoso, macunaímico, que (felizmente) optou por morrer lentamente, night by night, gotejando insights pelos bares, baladas, puteiros e demais campos e antros de nossas quebradas culturais. Um work mais pra alcoolic que pra aholic, mais pra junkie que pra jobs, um quase Bukowski, pero ‘in love’. E sem deixar de ser menino. O mundo se acabando e ele olha pro céu pensando: ‘por que o Ultraman não vem?

Às vezes eu puxo aquele papo pseudo-poético-intelectualóide, mas com ele isso não cola. Sua poesia não é teórica. Nem retórica. É a sofrência da alegria ilusória dos dias. A vivência doida e doída implícita a cada linha escrita. Seus poemas são plenos de lembranças, da adolescência, da infância, da dor cotidiana e de um humor ferino que só os muitos safos e/ou fodidos sabem ler.
Seu desencanto não é ‘só’ com o homem. Não é ‘só’ com a política e com sua polícia. Nem com as injustiças assassinas dos ministros da economia. A vida é um fardo pesado. Quase sempre inevitável. Mas o poeta tira de letra: seu corpo dói, seus cornos doem, sua alma dói… garçom, ‘um uísque cowboy!‘. Sofre, como qualquer letrista de bolero, mas debocha da dor. Porque o humor é a salvação dos sábios. Vlado mais que antiautoritário é o antiotário. Assimila e dissimula, toma porrada e finge que não foi nada. Prefere roubar o show contando piada do que levando às lágrimas. Esse é o Vlado engraçado, debochado, aparentemente desligado. Faz música hilária, politicamente incorreta, de fanho, gago, maconheiro… E reserva ao poema o murro rápido e certeiro que desfere contra o queixo do sistema.

Antenado, cita todas as modernidades e maravilhas contemporâneas. Mas nem usa ou faz questão. Vai ali, ‘exalar exílios‘. Sua pegada poética é visceral: sexo na veia e rock and roll na cabeça. Vlado é pop e isto não é um reducionismo, ao contrário do que ‘incineram’ por aí. Antes, o insere em seu tempo de forma perene: suas imagens são jabs, cliques, clipes, carícias tão finas que cortam, recortam e fazem sangrar. Vlado não é guti-guti, não é emoticon de facebook. Despeça-se de si. Atual e atemporal, um  poema dele te leva além. Alhures daqui. Ouço dizer, às vezes, ‘esse cara não existe!’. Mas o Vlado Lima é real, acredite: é o poeta mais legal que já vi, desde que li Leminski.

O cara que eu sonhava ser quando comecei a escrever morre de inveja desse patife!

 

 

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FOUCAULT FREUD E FRALDAS DESCARTÁVEIS
para Viniboy, para Pedro e para Lucas

dialético diletante
não queria ser pai
crianças são diuréticas
mijam demais
cagam demais
choram demais
mas nasceu meu filho
uma bolinha de carne com 3 quilos e 800 gramas
aprendi cambalhotas
piruetas
caretas
e outras macaquices
virei um encantador de mamulengos
um cartoon de carne
um domador de dinossauros
um funâmbulo sonâmbulo
que em noites de cólica versus chá de camomila
toca pandeiros de pelica
numa banda de pandas de pelúcia

 

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AQUÉM DA CÚPULA

compartilhei silêncios
ninguém curtiu

aqui /
aquém
da cúpula virtual
/ o real
não vale 1 Real
rasgado

tudo é
pose & pet

(…)

invisibilizei meu perfil
montei minha mobília numa ilha lá na lua
e anunciei no balestreiro da garagem
: maluco vende tudo!

vou correr trecho (acho)
virar Diadorim sobre as veredas do sertão
sem fim

axilas ao sol

quem perguntar por mim?
: fui ali exalar exílios

 

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UM CARA DURÃO DE CORAÇÃO MOLE

ela
tem a mania
dom eu diria
tudo que toca vira açúcar
vira circo
ciranda
matiné
sessão da tarde com bolinho de chuva e guaraná
e o jeito é me desarmar
aposentar os cascos
e vestir a gargalhada de domingo

outro dia
encasquetou
cismou de casar
de aliança papel passado
e latinha de cerveja no para-choque
agora
quer ter filhos
um menino
e uma menina
sei não
mas do jeito que as coisas vão
acordo
um dia desses
acreditando que sou um sujeito
feliz

 

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O HOMEM QUE COMEU MINHA MÃE

o homem que comeu minha mãe
o primeiro
era moreno
meio mouro
meio bugre
o cabelo preto muito preto
e uma lábia de vendedor de enciclopédias

o homem que comeu minha mãe
chegou no lombo de uma Caloi
cowboy nordestino
de sapato bico fino
calça pantalona
brilhantina no cabelo
e uma peixeira calibre 22
minha mãe caminhou sobre as águas
tocou banjo com anjos alcoólatras
e passou merthiolate nas chagas de Cristo

o homem que comeu minha mãe
foi embora no intervalo de um Corinthians e Bangu
disse que ia comprar cigarros
e desapareceu numa nuvem de gafanhotos
minha mãe desceu à mansão dos mortos
lambeu as sarnas de Cérbero
e pariu crisântemos nas vielas do inferno
virou uma bruxa chocha com o coração de jiló
que em noites de TPM cospe relâmpagos de sal
às vezes a velha olha através de mim
: tu és a cara do teu pai!

 
vlado

Essa foto é da noite ‘brega’ de terceiro aniversário do Sarau da Maria, do qual o Vlado é um dos organizadores. Há treze anos ele também criou e apresenta o concorrido sarau Sopa de Letrinhas (o próximo será no dia 30/4, no Julinho Clube). Fundou com uma turma talentosa de compositores o famoso Clube Caiubi. Tem canções incríveis como euodeiocaetanoveloso.com.br e Boleiros. Publicou dois livros da mais alta poesia que os cadernos culturais ignoraram, mas você precisa ler: ‘Pop Para-Choque‘ e ‘Como Suportar Jabs no Baço e Encarar Nocautes‘. Esse mais recente tem uma gloriosa apresentação do jornalista e escritor Xico Sá. Não é pra qualquer um, né? Encerro o capítulo Vlado com o trecho de um lindo poema que o Oswhaldo Rosa, poeta da Vila e do Sarau da Maria dedicou a ele. (Na semana que vem prometo mostrar mais poemas do Oswaldo Rosa e suas composições com a grande cantora Susie Mathias. Aguardem!)


poeta de alma carnívora
devora tabus e buças e cus
Vlado cativa e incita
provoca tsunamis e brisas
se a mente do leitor não se limita
seus versos são espelhos
que refletem sol de meio dia
brinca
fustiga
até irrita desesperados olhos míopes
de quem busca o mundo por lentes coloridas

 

 

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GERALDO AZEVEDO E EU 

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Geraldo Azevedo não sabe, mas me acompanhou durante a juventude. Com o dinheiro do meu primeiro emprego de boy, fui comprando maravilhosos discos ‘antigos’, como o Panis et Circences, o Sgt. Peppers e o Clube da Esquina. De tanto que eu ia lá xeretar, fiz amizade com o dono da loja e ele me deixava levar pra casa ’emprestados’ alguns discos de artistas ‘novos’ daqueles fins de anos 70: Belchior, Elba, Zé Ramalho. Certa tarde ouvi Amelinha cantando Dia Branco, de um tal de Geraldo ou Geraldinho Azevedo, e logo fui atrás dos discos dele. Vivíamos ainda sob ditadura e eu, jovem indignado com isso, percebi que ele era dos meus e não cantava por cantar. Havia beleza, inovação e desejo de mudar o mundo em suas músicas e letras. Sua turma de parceiros não era alienada e até hoje não se rendeu aos brilhos do sucesso fácil. Nem ele também jamais trocou suas convicções por um punhado de efêmera fama. Só recentemente é que fiquei sabendo que o jovem Geraldinho foi violonista na banda de Geraldo Vandré, pouco antes de seu exílio forçado (com a decretação do AI-5, a prisão de Vandré era iminente). Nessa época compuseram juntos a bela Canção da Despedida. Conversei com Geraldinho após seu show de sábado no Sesc Belenzinho. Feliz constatei que, décadas depois, ele continua o mesmo artista popular digno, que canta sua aldeia e assimila as influências do mundo, misturando informações e sensações dentro de sua canção. E continua sendo um exemplo de que é possível fazer sucesso sem se deixar corromper pelo ouro de tolo oferecido pela indústria cultural. Notei (e lhe disse) que ele está tocando melhor que antes, fazendo uso de solos e baixos, colocando de forma mais adequada e agradável sua pequenina porém afinada voz. No belo espetáculo, ele emendou grandes canções num desfile arrepiante de lembranças e emoções que marejaram meus olhos algumas vezes. Bom sentir que Geraldo Azevedo continua meu amigo e ainda mora lá, naquele país íntimo e bonito que carrego comigo, em meu peito sonhador de eterno menino. Acho que ainda sou aquele boy à procura de grandes músicas e discos. Como essas pérolas do Geraldinho.

 

 

 

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CAFÉ E EDIGAR MÃO BRANCA

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Aproveito pra lembrar e homenagear, humildemente, a dois amigos, grandes cantadores dos saraus e da música popular, que foram bastante influenciados pelo grupo de Geraldinho (Elomar, Alceu, Xangai, Vital). Um é o Ezequias Café, que desde sempre foi o violeiro oficial das festas e cantorias das tribos teatrais e políticas do Jardim Brasil. Café sempre nos encantou com sua música e simpatia. Ano passado, se apresentou no Show da Maria, acompanhado por Galba, Rafa e Brau, dividindo a noite com o grande Sacha Arcanjo, de quem falei na semana passada. O outro é o Edigar Mão Branca, do grupo Pau de Arara, muito presente em feiras de música, nas atividades culturais da Sociedade Amigos de Bairro do JB e com quem participei de festivais em Sampa, até que ele resolvesse voltar pra sua Itapetinga natal, lançar discos e se tornar um dos mais requisitados forrozeiros das festas juninas naquelas cercanias. Edigar é um daqueles raros talentos natos: nasceu pra música e a música sempre foi a razão de ser de sua vida. Aos dois artistas e amigos, seguidores da musicalidade e da integridade artística de Geraldinho, meu carinho de amigo véio, minha admiração e respeito crítico.

 

 

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AGENDA

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dia 30/3 – quarta – 16h …  Sarau na Biblioteca Cassiano Ricardo … O Projeto Veia e Ventania apresenta o Sarau A Plenos Pulmões sob o comando de Marco Antonio Pezão. Será feita uma homenagem ao poeta Cassiano Ricardo e em seguida o microfone estará aberto ao público. No Tatuapé.

 

dia 30/3 – quarta – 19h … Tinta Fresca – Março … Encontro em roda para compartilhar e discutir textos inéditos, visando desenvolver a autocrítica literária de cada participante. Organizado pela poeta Juliana Bernardo. Em Pinheiros.

 

dia 31/3 – quinta – 18h … Café com Ideias – Mulheres nas Artes … Roda de conversa acompanhada de um café, que terá como tema a mulher na arte. Show da cantora baiana de MPB Indy Naíse com a participação de Tchelo Gomez. Na Vila Nova Cachoeirinha.

 

dia 31/3 – quinta – 19h … Quinta Poética … Mensalmente, a Casa das Rosas abre suas portas para um grande encontro dos amantes da poesia, com a presença de poetas consagrados e novos talentos. Organizado por Davi Kinski e Rubens Jardim, promovido pela Escrituras Editora.

 

dia 1/4 – sexta- 20h30 … CONRADO PERA … O compositor e cantor é considerado uma das grandes novidades da música contemporânea, surpreendendo pela mistura, sensibilidade e pluralidade de gêneros. Turnê de lançamento do cd Enlaçador de Mundos.

 

dia 2/4 – sábado – 15h … Sarau na Adelpha … O violeiro Betto Ponciano é o convidado da vez. Depois, palco aberto. Traga seu poema, seus instrumentos, sua canção. No Pari.

 

dia 2/4 – sábado – 17h … SARAU PENSE JÁ (6° edição) … Show com o dj Beto Cruz, lançamento do livro “O Vendedor de Travesseiros” de Emerson Alcalde, Varal de Poesia com Deusa Poetisa e intervenção poética com o pessoal do Poesia na Laje. E palco aberto pra quem quiser participar. No Espaço Cultural Opereta.

 

dia 2/4 – sábado – 18h … MAHATRIO – “Grande Estreia” … Estreia da nova banda formada pelo guitarrista do Lhamas do Tibet, Antonio Rodrigues e por dois músicos do Caldonia, o baixista Dico Santana e o baterista Elvis. No bar Carauari, na Vila Maria.

 

dia 2/4 – sábado – 19h … Lançamento do livro Deflora, de Gabriel Felipe Jacomel … No livro, poemas como: ‘Diacronia / quanto mais remava contra a maré / mais sua vida passava a rimar’. O Patuscada – Livraria, Bar e Café e o autor convidam a todos para o lançamento.

 

 

Foto da capa
dia 2/4 – sábado – 22 h … Bailão do BOWIE … 6 horas de David Bowie no Espaço Capote com projeção de vídeos nas paredes, no chão e no teto. Toda a discografia camaleônica pra você mexer o esqueleto e matar a saudade. Em Guarulhos.

 

dia 3/4 – domingo – 16h … 6ª Edição Sarau URUTU … Sarau de resistência e luta contra desapropriação de moradores. Na programação, recreação ‘Ocupa Urutu’ com Lais Boto, intervenção de grafitti com Vander Che, mostra do filme sobre o bairro e microfone aberto. Em Ermelino Matarazzo.

 

dia 3/4 – domingo – 16h … Indy Naíse (03.04) | Feeling Music Bar … Show da cantora com participação de Tchelo Gomez e Camila Trindade na Vila Mariana. A casa seleciona músicos para futuros eventos. Mande seu material para victor.feelingproducoes@gmail.com

 

dia 5/4 – terça – 21h  Inrollando Stones no Café Piu Piu … Noite stoneana no bar mais rock and roll de São Paulo. Também no local uma mini- exposição com fotografias de shows. No bairro do Bexiga.

 

dia 7/4 – quinta – 10h … Curso de elaboração de projetos culturais com a Profª Dra. Isaíra Maria Garcia de Oliveira … Curso apresenta ferramentas para medir resultados de projetos e ações culturais, possibilitando análises críticas e maior eficácia. Na Vila Madalena.

 

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Semana que vem tem mais.

Inté!

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