Os cds e a história do compositor Paulo Barroso, que eu havia prometido comentar hoje, ficarão pra janeiro. Outros dois grandes artistas ligados a saraus surgiram com interessantes novidades relacionadas às festas de Natal e Ano Novo.

Um é Kleber Albuquerque, que lança divertido clipe com a participação dos fãs. Na canção, Papai Noel se encanta com nosso clima tropical e resolve ficar para o carnaval. Outro é o poeta Léo Nogueira, que recebeu encomenda de Zeca Baleiro e escreveu um hino de paz e tolerância para um especial de fim de ano da Globo.

Foi o jornalista Mauro Dias, ainda nos anos 90, numa matéria no Caderno 2, quem primeiro me alertou para o talento do Kleber (ver discografia).  Obrigado, Mauro. Desde então, já me deliciei com vários cds e belas canções do compositor e cantor nascido em Santo André. O Kleber (como o Zeca Baleiro, o Tavito, o Edvaldo Santana, o Gerson Conrad, o Lula Barbosa, o Gereba) é um dos muitos artistas de sucesso que frequentam o circuito de saraus. Alguns até promovem eventos próprios, onde abrem espaço para os novatos. Foi na  Gira de Compositores, na casa do Kleber, que conheci Adolar Marin (criador de um ótimo programa musical na net, o “Na Minha Casa“), e o jovem e talentoso Gabriel de Almeida Prado, de quem também falarei em breve neste espaço. Já no Sopa de Letrinhas, encontrei o Léo Nogueira, grande letrista de muitos músicos: o já citado Zeca, a Kana Aoki,  o Augusto Teixeira e o Marcio Policastro, entre outros. No fim, todos se interligam nessa vasta teia dos saraus. O Léo, super produtivo, ainda mantém um blog onde comenta música, literatura e política: O X do Poema. Também lançou recentemente seu ótimo romance “Filho da Preta“, infelizmente ignorado pela mídia especializada. Mas eu li e recomendo: além de ser leitura prazerosa é um comovente retrato dos conflitos da alma brasileira, uma reflexão sobre os dramas e a beleza de nossa miscigenação. Assunto também comentado em sua letra que o Zeca musicou (veja a letra toda, lá embaixo).

“O Brasil só é cheio de graça
Porque é fogo de mais de um braseiro

Belo caldeirão de raças
Praça por onde passeia o mundo inteiro”

Desejo um ótimo 2016 para vocês. E vamos às canções (e aos texto-poemas que, humildemente, dedico a eles dois).

 

Kleber encanta com voz de vento soprando brando. Às vezes, vejo pássaros mágicos sobrevoando seu canto. Como pode flor tão rara e preciosa resistir na aspereza do solo urbano? Em suas letras antenadas há gente de verdade, de vida árida. Mas sempre há um rumor de água tecendo os destinos. Há uma chuva generosa tamborilando harmonias. Há pingos caindo emocionados. Há olhos vidrados. E há instantes de quase silêncio, de lágrimas suspensas, em que vislumbro as clareiras interiores que compõem suas delicadas obras. É possível colher primaveras nessa hora. Há girassóis em seus acordes. Há uma esperança confeitada no asfalto. Vaza luz de suas canções. E é da pele das pétalas que a música de Kleber Albuquerque se veste. E floresce.

 

https://www.facebook.com/leo.nogueira1/videos/10201226743866578/?theater

 

Léo Nogueira escreve escava crava. Labuta. Letra poema pedra fruta locomotiva. Queima teima inventa. É chama viva. Qualquer tema fato formato o diabo à quatro ele lapida. Craque da palavra lavra livro blog song comportamento política. Léo não cabe no pouco. Não basta em si. É louco pelo outro. Pelo reverso do verso. Enxerga no escuro. É vasto amplo e complexo. Mas tudo ele esclarece, descomplica recicla. Mergulha na estrutura. E a tritura. A escritura é fácil quando se sabe os atalhos. Seus versos têm cheiro de gol. De placa, pura pintura. Tudo é tempero pra sua fina mistura. Vida sonho e literatura se confundem. O que é real ou ficção? Onde o limite do possível? Quando tudo parece perdido, Léo nos desilude. Ele escreve de onde as fronteiras humanas se fundem.

 

MANO CIDADÃO

Zeca Baleiro – Léo Nogueira
O Brasil só é cheio de graça
Porque é fogo de mais de um braseiro
Belo caldeirão de raças
Praça por onde passeia o mundo inteiro
Japonês, judeu, muçulmano,
Africano, italiano, alemão
Todo mundo é nosso mano
Todo humano é cidadão
Quero prato na mesa
Quero arte e beleza
Saciar essa fome
Que quem come tem
Quero tempo, tempero,
Riso, música, esmero
Ter o básico, é claro,
E o raro também