Comigo foi na última segunda-feira. Logo segunda? Meu corpo só pode estar de brincadeira. Passei a noite de domingo para segunda em claro. O estômago parecia ser rasgado por uma navalha. Andei pelo banheiro escuro, tateando o móvel em busca de uma cartela de remédios. Não adiantou. Às 8 da manhã não havia qualquer hipótese de me levantar. Nem às 10. Mas às 11 me obriguei a tomar um banho, vestir uma roupa e montar meu escritório improvisado no sofá da sala.

 

Não costumo trabalhar de casa. Só se for muito necessário. E naquele dia era. Depois de umas duas horas- já havia mandando e-mail para três clientes, finalizado um trabalho, ajeitado um texto, falado com meu contador- percebi que eu só piorava. E que o rolar da tela do computador começava a me dar enxaqueca. E que minha postura no sofá era inadmissível, ombros tensos e pendurados. Meu corpo gritava comigo mais uma vez “pára com essa merda!” e eu fingia que não estava ouvindo.

 

É interessante como a possibilidade de trabalhar de casa acabou automaticamente com o nosso direito de ficar doente. Acabou também com o nosso direito de ficar saudável. Tudo parece flexível: nossas horas de sono, nosso momento de comer, nossa necessidade de descansar, nosso mal estar. Existe um computador à nossa disposição e um smartphone ao lado: por que haveríamos de parar? Tá tudo na mão.

 

E a gente nem percebe que é um círculo vicioso: trabalhamos demais, o corpo sente, ficamos doentes, precisamos ficar em casa, não nos permitimos o descanso necessário, voltamos a trabalhar meio capengas, trabalhamos demais, o corpo sente… E ainda há as situações mais graves: aqueles que nem se permitem (ou não podem) ficar em casa quando adoecem (já fui dessas) e aqueles que só trabalham de casa e começam a nem discernir quando estão bem e quando não estão.

 

E as coisas vão se intensificando: todos com quem você trabalha têm o seu telefone (sim, houve um tempo em que as pessoas não nos acessavam a qualquer momento), o grupo de whatsapp do trabalho que não para, o software milagroso que nos permite trabalhar em qualquer canto, a qualquer hora. Não temos mais nenhuma desculpa para reduzir a frequência.

 

Sim, há vantagens em poder trabalhar remotamente. O pijama é uma delas. Mas frequentemente estamos comprando gato por lebre. Achamos que é um grande negócio, um fator de liberdade, uma oportunidade de ser mais dono da própria vida. E acontece exatamente o oposto: somos cada vez mais escravos de uma rotina que nos engole.

 

O nosso corpo não deveria ter que nos pedir para parar. Mas ele pede. E a gente não dá bola. Então ele implora. E a gente continua. Até que ele resolve nos obrigar. Então paramos, inconformados com a fragilidade dele. Nos enchemos de remédios e voltamos serenamente aos nossos excessos, até que ele nos obrigue a parar outra vez. Tá tudo errado mesmo.