Num primeiro momento, podemos definir ressaca como a condição fisiológica de um indivíduo que consumiu dose exagerada álcool ou outro entorpecente. De forma mais popular: um ônibus biarticulado passou por cima de você, um redemoinho se instaurou na sua barriga e os neurônios que sobraram fazem obra com furadeiras dentro da sua cabeça.

Esta tradicional ressaca, além de parecer que estamos sendo castigados por cada gole dado na véspera, costuma ficar estampada na nossa testa, denunciando nossos pecados da noite anterior a todos com quem cruzamos: chefe, família, porteiro, colega de trabalho. Você diz “Bom dia”, mas sua cara diz “PELAMORDEDEUS, AJUDA, ESTOU FALECENDO”.

Como se isso já não bastasse, é preciso lembrar que esta é só uma das formas de ressaca. E mesmo as criaturas mais disciplinadas, que não encostam em bebida alguma, não estão a salvo de algum dos tantos tipos de ressaca.

Muitos falam em ressaca moral. Mas este é um termo excessivamente abrangente, que merece ser esmiuçado consoante cada situação.

Podemos começar com a ressaca labial, que ocorre quando você beija quem não deveria. Colega da firma. Ex peguete. Ex namorado(a). Ex marido. Ex mulher. Ex Traterrestre. Vizinho. Pessoas parecidas com o Pedro de Lara, do sexo masculino ou feminino. Esse é um dos tipos mais frequentes de ressaca na quarta feira de cinzas.

Temos também a ressaca muscular: aquela que afeta os indivíduos que pulam, dançam, sobem, descem e requebram como se fossem irmãos mais novos da Ivete Sangalo e no dia seguinte não conseguem nem levantar para fazer xixi. Passam a se arrastar pelos cantos, parecendo uma mistura de lesma com guarda chuva quebrado.

Há também a ressaca gastronômica, que atinge pessoas que comeram pizza no jantar de sexta feira. Calabresa, frango com catupiry e banana com nutella.  Depois de 5 horas bateram um dogão. Amanheceram no sábado e forraram o estômago com pão na chapa, pão de queijo, misto quente. No fim da tarde foi x-bacon. Sorvetão. Esfiha. Coxinha. E… ressaca. Não vou comer nunca mais. Vou virar vegano. Vou colocar fita isolante na boca.

Ressaca financeira. Você se anima (muitas vezes depois de umas caipirinhas) e resolve, sem mais nem menos, que está rico. Oferece rodadas de chopp para os amigos. Pede a segunda garrafa do vinho caro. Dá gorjetas maravilhosas. Fala que hoje o jantar é por sua conta. Senhor amado. Dói. Dói muito mesmo.

Ressaca laboral. Você deveria ter trabalhado no feriado. Jurava que ia trabalhar no feriado. Mas sabe o que você fez? Assistiu séries. Comeu churrasco. Dançou até o chão. Boiou na piscina. E agora o trabalho está aí na sua frente, acumuladão, todo lindo, sorrindo sarcasticamente para você.

Muito semelhante à ressaca laboral é a ressaca acadêmica. Pessoas que deveriam ter estudado. Sete textos para ler. Quatro livros para fichar. Artigos para redigir. Pesquisa para fazer. E a pessoa só cantou e cantou e cantou a beleza de ser um eterno aprendiz. Ai meu Deus.

Quem seleciona bem os amigos também pode ter ressaca alheia.  Você não faz nada de errado, mas cuida de quem fez. Paga por quem fez. Dá esporro em quem fez. Jura de pé junto que nunca mais vai ajudar quem fez. E sabe que vai. Uma mão lava a outra, nunca se sabe o dia de amanhã.

Mas grave mesmo é ter ressaca generalizada, um pouco (ou muito) de cada. O trabalho aí na sua frente, a cabeça doendo, a conta bancária medonha, o botão da calça que mal fecha, seus amigos sem dignidade… Enfim, um estrago.

Mas, por pior que seja, a ressaca ainda é um jeitinho de esticar a festa. Você já saiu da festa, mas a festa não saiu de você. Boa sorte para nós.