Eu tinha 15 anos quando li sua primeira biografia. Há 14 anos, Frida ainda não era uma moda tão latente mundo afora. Lembro-me de falar sobre ela e ouvir os amigos adolescentes perguntarem “quem? Aquela pintora que tem monocelha?”, provocando algo entre minha ira e meu desprezo por reduzirem uma mulher daquele tamanho à insignificância dos pelos.

 

Tive aquele ciúme besta, coroado pela inútil frase “eu já gostava dela antes de ser modinha”, julgando-me muito mais no direito de usar camisetas com sua cara, de ter sua cara nos meus cadernos, meus cadernos com seus quadros e de ter quadros com suas frases do que todos os demais, por já ter mergulhado em dezenas de livros sobre sua vida, passando pelas cartas que escreveu, pelas fotografias que seu pai tirou e por livros dedicados unicamente à sua relação com Diego Rivera. Hoje tenho a noção de que li pouco, de que sei pouco sobre essa história sem fim e que ainda precisaria de mais 15 anos para falar sobre Frida com alguma propriedade. Mas o conhecimento um tanto quanto raso nunca me impede de seguir sendo aficcionada por ela.

 

Hoje entendo que a paixão por Frida, sobretudo por mulheres, é algo que aproxima-se de uma questão de sobrevivência. Explico-me. Frida foi uma sobrevivente em todos sentidos da sua vida. Sobreviveu à poliomielite na infância, sobreviveu ao acidente na adolescência, sobreviveu a uma relação falha com a mãe, sobreviveu a uma paixão desmedida pelo pai epilético, sobreviveu aos seus abortos, às suas tantas cirurgias, à sua infindável dor, sobreviveu como mexicana nos Estados Unidos, como latino-americana em Paris, sobreviveu a Diego, com seu amor desenfreado e cheio de desencontros, sobreviveu ao divórcio, sobreviveu a apaixonar-se a casar-se outra vez com este mesmo homem, sobreviveu às traições mútuas, sobreviveu às amputações, sobreviveu o quanto pôde.

 

Mas mais do que sobreviver, Frida transformou cada fiapo de dor na beleza da sua obra e é exatamente por isso que é mais fácil sobreviver olhando para ela. Parece que, ao lembrarmos de sua bravura ao longo da caminhada, reconhecemos que não podemos parar por causa das nossas pequenas-grandes dores. Ela era uma mulher normal. Não nasceu nobre, não nasceu rica, não nasceu deslumbrante, não nasceu com uma força descomunal. Ela fez-se forte porque a vida assim exigiu. Poderia ter desistido- de pintar, de amar, de lutar por seu país- mas não o fez. Ela poderia, com toda razão do mundo, viver de lamentos. Mas seguiu, linda, viva e cheia de cores.

 

Frida aprendeu a pintar sozinha. Ser autodidata é algo que a vida frequentemente nos exige em diversas esferas. E é bom poder olhar para ela. É bom podermos nos inspirar nela, dia após dia. Frida pintou na cadeira de rodas e na cama. Que justificativa tenho eu para me acovardar na segunda de manhã? Frida cansou-se da dor, do desamor, dos hospitais, de tentar ser mãe sem sucesso. Do que eu estou cansada? Frida brilhou como pintora, mesmo casada com um dos maiores pintores de sua época, em tempos ainda mais machistas do que os nossos. Do que eu estou com medo? Frida não podia pintar como Diego, com seus murais de 2 por 5 metros. Pintou seus quadros pequeninos, cuja intensidade arrepia até o último fio de cabelo. Qual é a minha desculpa para não fazer o que devo fazer?

 

Olhar para Frida é olhar para o que há de melhor dentro de nós. Quando entrei na Casa Azul, em Coyoacan, no México, quando toquei suas paredes, quando me sentei em seu jardim, me senti a perfeita mistura entre uma invasora, uma velha amiga e uma abençoada. Frida é a figura mais humana e mais divina que já existiu. Sua proximidade com o céu, o inferno e a terra é visível em cada pincelada. E a sua existência não pode ter sido um mero acaso. Frida existiu por muitas razões. Frida resistiu por muitas razões. Frida segue viva não apenas nas grandes árvores de raízes profundas do México, mas no peito de muitos homens e de muitas, muitas mulheres que, ao pensarem em entregar os pontos, lembram-se dela. Param e lembram-se daquela improvável convivência entre tantas cores e tantas dores. Respiram, erguem a cabeça e seguem seus caminhos, tão doloridos quanto coloridos.

 

Gracias, Frida, é mais fácil por haver você.