J de Já é uma mocinha

 

Já é uma mocinha é a forma sutil que se encontrou para dizer que uma menina já está crescida o suficiente para ser julgada por ser mulher. Por ser uma mocinha ela já deve preocupar-se com a roupa, com a calcinha à mostra, com o cuidado com a casa. Ninguém nunca dirá, “você já é uma mocinha, pode optar entre ser astronauta ou presidenta”. Dizer que ela já é uma mocinha é mostrar para uma menina a posição que o machismo espera que ela ocupe na sociedade, nem mais, nem menos.

 

L de Licença maternidade

 

A licença maternidade é machista? É. Se não fosse ela se chamaria licença natalidade. Presume-se que seja a mãe quem abra mão de meses de trabalho em prol do cuidado com a criança. Sim, há, de fato, a recuperação do parto e a amamentação. Mas não seria sensato permitir que a família gerisse este período da forma que lhe fosse mais conveniente, através do diálogo e da liberdade? O machismo detesta a paternidade ativa e detesta a mulher que valoriza a própria carreira. Licença maternidade de 120 dias, licença paternidade de 1 semana. Para o machismo assim está ótimo.

 

M de Mulher de amigo meu pra mim é homem

 

Essa maravilhosa frase ainda nos visita com uma certa frequência, tentando simbolizar a conduta respeitosa de um homem como trunfo. A mulher de um amigo, por esta lógica, merece respeito não por ser ela mesma, mas por “pertencer” a outro homem. Para piorar, a única forma de não desejá-la, assediá-la ou ofendê-la, é enxergá-la como… homem! Porque ser mulher nunca basta. Para o machismo, nunca basta.

 

N de Não posso nem fazer uma piada

 

O machismo considera-se muitíssimo bem humorado. Faz brincadeiras, piadas e outras formas de humor que seguem uma única regra: alguém deve pagar pelo riso. Às vezes são as mulheres, outras vezes são os gays, outras vezes são as loiras e frequentemente são as mulheres tidas como feias ou como gordas. O machismo jura de pé junto que é engraçado diminuir alguém. E “ai” de quem se ofender. Eu, hein, não posso nem fazer uma piada.

 

O de Onde você vai amamentar?!

 

Essa é uma boa pergunta. Porque o machismo considera que, muito embora um homem possa embriagar-se tranquilamente numa mesa de boteco na calçada, um bebê não pode alimentar-se em qualquer lugar, uma vez que a sua alimentação envolve peitos. Peitos! Que coisa chocante! Nas propagandas de cerveja eles são bem vindos, na alimentação de uma criança eles são tabu. O machismo tem certeza de que a amamentação só deve acontecer entre quatro paredes, com a porta fechada e com um paninho inútil cobrindo este ato tão traumático. Amamentar em público é um excesso desnecessário e deselegante, diz o machismo cheio dos seus bons costumes.

 

P de Pronomes possessivos

 

Mulher MINHA não sai com essa roupa. Filho MEU não usa cor de rosa. Na MINHA televisão ninguém vai ver beijo gay. Segurem SUAS cabras que MEU bode está solto. Ninguém faz essa sujeira no MEU carro!  Filha MINHA não chega a essa hora em casa. O que você está comprando com o MEU dinheiro? Na MINHA casa, mando eu!

 

Q de Quem vai com você?

 

Para o machismo, mulher é um ser que sempre necessita de complemento, por isso a pergunta recorrente é “quem vai com você?”. Com os filhos é uma constante: o filho diz que vai jogar bola e sai, a filha diz que vai tomar um sorvete e ouve “quem vai com você?”. E assim essa lógica segue vida afora. Quando duas mulheres adultas foram mortas numa viagem na América do Sul, muitas notícias afirmavam que as mulheres viajavam “sozinhas”. Ou seja, a companhia de outra mulher nunca basta. É dar sorte para o azar. O machismo tem certeza de que, se você for mulher, é sempre bom que alguém vá com você, caso contrário, a culpa será sua.