Eu sempre amei a palavra família. Eu sempre amei a ideia de família.

Amei a ideia de família, porque fui criada em uma família incrível. Uma família reconstituída, fruto de divórcios, de novos casamentos e tantas outras bagunças da vida –tive até o prazer de ser convidada para o casamento dos meus próprios pais. Família na qual tem neta com sobrenome do padrasto da mãe, tem afilhada estrangeira que virou filha, tem tio gay criando o filho adotado da irmã que morreu, tem judeu que casou com católica feminista, tem casal evangélico feliz que casou cedo, tem líder espírita de 90 anos que sempre toma cerveja preta, tem lésbica conservadora, tem veterano de guerra que cria patinhos, tem casal com 25 anos de diferença de idade e tem até eu mesma no meio dessa confusão toda.

Essa é a família da qual me orgulho, que colocou cada tijolo para construir a pessoa que me tornei. Foi essa família que me protegeu a vida toda de qualquer pequena ameaça: pernilongos, friagem, corte de papel no dedo. E é essa mesma família que hoje está ameaçada de simplesmente deixar de existir, por causa dos bons princípios do nosso deprimente Poder Legislativo.

A minha noção de família foi rasgada. Meu amor pela palavra “família” foi colocado em questão. Porque a cada vez que vejo a palavra família nos jornais, me dá um frio na espinha. Não era para ser assim. A palavra família era para ser um abraço. Mas ela passou a dar medo, porque sabemos que esconderam por trás dela uma imensurável mediocridade que marginaliza, que exclui, que deixa para fora do lar todo mundo que não se encaixa no lamentável padrão estabelecido por eles.

Mas a família de verdade nunca deixa ninguém para fora.

Família sempre foi sinônimo de braços abertos. Minha família sempre acolheu a todos, independentemente de laços de sangue, laços jurídicos, laços cor de rosa, laços coloridos. Foi com ela que aprendi a abrir os braços para amores que não são meus, mas que assim se tornam.

Mas não. Eles não querem essa família. Querem a família que fecha seus braços e afasta de si tudo aquilo que foge do óbvio. E o óbvio é tão pobre, tão ordinário. Enquanto a riqueza da família está exatamente no extraordinário. Mas eles querem nesse triste conceito de família é que só possa brotar gente lá dentro e que nunca mais a gente possa abraçar quem vem de fora.

Na verdade, eles não querem família nenhuma. Eles não entendem nada de família. Quem entende de família sabe o quanto esse discurso é trágico, exatamente por nunca ter sido cômico.

Vamos fazer assim: criem um estatuto de qualquer outra coisa, mas deixem a família fora disso, por favor. Criem um estatuto do feudo conjugal. Que tal? Ou o estatuto do lar old fashion. Criem o estatuto do nóis é nóis o resto é bosta. Ou então assumam logo que querem criar o estatuto da homofobia. O estatuto da discriminação, o estatuto anti amor, o estatuto do avesso da família! Saiam do armário! Posicionem-se! Sejam homens! Não é disso que vocês tanto se vangloriam?!

Mas tenham a decência de poupar a família disso. A família, graças a Deus (que, apesar de não ter nada a ver com o Estado, é outra coisa que eu acho que vocês não conhecem), não tem nada a ver com esse nojento calhamaço de papel que vocês estão tramitando pelo Congresso.

E a verdadeira família, à qual vocês nunca terão a honra de pertencer, está aqui para lhes dizer em alto em bom som: vocês, o ódio e a pobreza de espírito NÃO PASSARÃO!