Quando a febre do livro 50 tons de cinza começou, numa roda de amigos me perguntaram se eu havia lido. Antes que eu respondesse que não, um amigo disse “claro que não, a Ruth não lê essas porcarias”. Alguns poderiam se considerar elogiados, mas eu fiquei confusa. Perguntei o porquê de sua certeza e ele me perguntou quais os livros que eu estava lendo no momento. Lembro-me bem: Contos do nascer da terra, de Mia Couto e Senhor e Servo, de Leon Tolstói. Foi a cereja do bolo: “tá vendo? Quem lê isso, nunca vai desperdiçar seu tempo com 50 tons de cinza.”.

Deixo claro porque não li: realmente me falta tempo. A lista de livros que quero ler na vida é quilométrica e, para piorar, leio devagar. Não é elitismo intelectual, nem aversão a best sellers (sou uma eterna fã do Diário de Bridget Jones e tive meus dias de fixação pelo Código da Vinci). É simplesmente uma questão de prioridades. E 50 tons de cinza não era uma delas.

Mas ontem fui ao cinema, pagar para ver. Gostei? Não. Exceto da trilha sonora, da qual sou presa fácil. Achei o filme apressado, tentando nos fazer aceitar uma relação sentimental rápida demais para chegar naquela suposta sensualidade um tanto quanto patológica o quanto antes. Não me senti tocada pela história, nem morri de amores pelas cenas picantes. Mas não saí do cinema frustrada, não criei expectativas.

Mas não vim aqui para ser mais uma a descer a lenha em 50 tons de cinza. Não sou crítica de cinema, nem de literatura. Não sou nem jornalista, falo como uma leiga total. Li uma dezena de críticas e o pior é que concordei com quase todas. Mas meu exercício diário é o de ver o lado bom das coisas, mesmo quando não me agradam. Acho mais construtivo- apesar de mais difícil- do que continuar apontando defeitos evidentes. Então vim para tentar falar sobre o que acho que ele trouxe de bom.

Não vou entrar no mérito do enredo: empresário rico, estudante de literatura virgem, milhares de dólares, algemas, chicotes, submissão, blábláblá. Disso já se falou muito.

O que acho é que 50 tons de cinza abriu uma porta muito importante. Quando o livro ficou na moda comecei a reparar em muitas pessoas, sobretudo mulheres, que jamais admitiriam gostar de literatura erótica ou de qualquer coisa tida como pornografia, sentindo-se à vontade para carregar o livro para cima e para baixo, sem vergonha alguma.

Me parece que o livro teve este condão um pouco libertador: permitir que as pessoas admitissem seu interesse pelo lado erótico da vida sem tanto medo dos olhares de censura. Abriu uma porta muito importante, que leva pessoas a se sentirem um pouco mais íntimas de si mesmas.

Muitas mulheres que se sentiam constrangidas ao passar pela programação noturna do Multishow, perceberam com o livro que o erótico não é imoral e que o interesse sexual, na vida, na arte e no cotidiano, é saudável. (não estou dizendo que aquela relação de dominação do livro seja saudável- longe disso- mas sim o fato de interessar-se- e gostar- de histórias que envolvam sexo)

Quero acreditar que 50 tons de cinza seja uma espécie de atalho para as pessoas chegarem a maravilhosas obras como Decamerão, de Boccaccio; 120 dias de Sodoma, do Marquês de Sade; Lolita, de Vladimir Nobokov; Trópico de câncer, de Henry Miller; A história do olho, de Georges Bataille; A casa dos budas ditososos, de João Ubaldo Ribeiro; O amor natural, de Drummond, a obra erótica de Hilda Hist, o próprio Kama Sutra e tantos outros.

Torço- e recomendo- que quem gostou de 50 tons de cinza, comece a se aventurar por tantas obras fantásticas que envolvem essa faceta da vida que é parte da nossa identidade e que pode, sim, ser linda.

Acho que se pensarmos em 50 tons de cinza como uma simples história, talvez não seja grande coisa. Mas se pensarmos nele como uma obra erótica que alcançou pessoas para as quais o sexo, a sexualidade e a arte erótica ainda eram tabus, temos então algo revolucionário, capaz de libertar pensamentos que há séculos andavam contidos.

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