Há alguns anos eu venho pensando a respeito da Jennifer Lopez. Gente. Que mulher. Linda, canta, dança, atua, é inteligente, cheia de dinheiro, dedica-se à caridade, namorou o Ben Affleck… Enfim. Será possível que ela não tem nenhum defeito? Micose, talvez, pensei eu do alto do meu inconformismo. Não que eu quisesse que a J Lo tivesse um defeito, mas, sabe como é, todo mundo tem.

 

Mas não precisei descobrir nada sobre o vão dos dedos do pé da cantora. Porque apareceu um probleminha, por assim dizer, antes disso. Há alguns meses, foi lançada sua música “Ain’t your mama”, em bom português, “Não sou sua mãe”. A letra diz basicamente o seguinte:

 

“Eu não vou ficar cozinhando o dia todo

Não sou sua mamãe

Não vou ficar lavando suas roupas

Não sou sua mamãe

Não sou sua mamãe

Garoto, eu não sou sua mãe”

 

De certa forma, acredito que todas as mulheres do século XXI sintam necessidade de dar o recado de que elas não estão no mundo a serviço dos homens e que as tarefas da casa devem ser partilhadas da forma mais justa- sim, o ano é 2016 e ainda precisamos falar sobre isso. Não tenho dúvidas de que esta mensagem faz sentido para muita gente.

 

Ocorre que a frase “não sou sua mãe” joga muita coisa importante- e muita luta- por água abaixo. O feminismo sempre nos ensinou que a emancipação de uma mulher não deve ocorrer através da opressão de outra. Sabe? Não sou sua mãe, não sou sua empregada, não sou tuas nega. Tudo o que parece tarefa ingrata é tarefa de mulher.

 

Ao cantar estas palavras, J Lo (que eu sigo admirando e que não condeno por cair numa cilada do senso comum) está dizendo que todas as tarefas domésticas são atribuições de mulher. No caso, da mãe do cidadão. Entretanto, ela também é mãe, e é, ao mesmo tempo, uma baita profissional. Não me parece que a Jennifer Lopez seja o tipo de pessoa que queira que os próprios filhos julguem que ela é a única responsável pela comida, pela roupa e pela louça. Não há responsabilidade de um pai também? Não há responsabilidades dos próprios filhos?

 

Para piorar, a letra insiste em “eu sou boa demais para isso”, mais uma vez referindo-se a tais tarefas. Acredito que ninguém deva julgar-se bom demais para fazer tarefas domésticas. Elas são das coisas mais importantes que temos para fazer, homens e mulheres, pais e mães, filhos e filhas.

 

Antes de vir trabalhar, arrumei a cama com cuidado, lavei a louça e reguei as plantas. Eu não sou boa demais para isso, independentemente de ser advogada, escritora e professora universitária. Muito pelo contrário. Na véspera, meu namorado fez uma bela sopa para o jantar e lavou a roupa escura. Ele não é bom demais para isso, ainda que seja executivo de banco de investimentos e empresário.

 

As crianças da minha casa seguramente não crescerão julgando que as tarefas da casa são responsabilidade da mulher. Não tomarão tais funções como indignas, nem como funções preponderantemente femininas. Não tolerarão algum homem que exija isso de uma mulher. E nunca precisarão dizer “não sou sua mãe” para ninguém, porque esta expressão simplesmente não faz sentido em estruturas familiares saudáveis e justas.

 

A liberdade de uma mulher não está na diminuição de outra mulher, nem das tarefas que ela possa desempenhar. A liberdade de uma mulher está, sim, na liberdade de todas. Está na quebra de paradigmas e na mudança de comportamento. Sabe? Eu não sou sua mãe, nem você é meu pai, mas será um prazer cuidarmos juntos da nossa casinha.

 

PS: J Lo, você segue sendo musa, só precisava fazer esse parêntesis.